O génio sem filtro e o filho da mãe

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Há umas semanas vi o filme de Nick Willing, Paula Rego: Histórias e Segredos.

Não escrevi no momento, porque me faltou o tempo, ou talvez até pela razão inversa: porque me sobrou o tempo, e assim deixei-me estar. Não sei se terá alguma coisa que ver com esta obsessão contemporânea com a lentidão (tudo agora é slow: slow food, slow journalism, slow life, o reverso cristalino dos tempos acelerados e imediatos que talvez nem cheguemos a viver), mas ando cada vez mais convencida de que é preciso tempo, tempo para tudo, até para não fazer nada, ou muito pouco, como tão bem nos recomendam os apologistas do ócio.

Nick Willing é o filho da mãe. O filho da mãe sem filtro. Como estes pais cheios de lacunas que acabam por preparar melhor os filhos para a imperfeição do mundo, Paula Rego é um livro aberto, escancarado, a falar para Nick como se fosse um desconhecido num bar a quem conta a sua vida sem pudor. Nós ouvimos/vemos a conversa, encantados, boquiabertos.  Ela diz “It’s either the brush, or the bottle”, referindo-se à incompatibilidade entre pincéis e biberons. Diz isto ao filho sem pestanejar e sem pôr nada em causa. É assim.

No fim, nem percebemos porque aparece a palavra “segredos” no título do filme, se ela os desvenda todos (ou quase, ou isso nos faz crer). Coisas horrendas, coisas difíceis, coisas complicadas (abortos, depressões, infidelidades, lutos). É  sempre ela, a vida dela. Muito perto da vida dela, mesmo quando se socorre de outros personagens. O mais bonito do filme, para mim, foi perceber essa proximidade. Claro que acontece muitas vezes, a vida na obra, mas assim?

Aquilo é a vida dela, a vida a fazer-se, em directo, não alguma memória distante, mais ou menos traumática. As histórias que a assombram e nos assombram são afinal a sua novela particular (todos temos a nossa). Um marido doente a quem cuida como um cão. O triângulo amoroso feito de animaizinhos. O baile ao luar tão claro como uma despedida. Lina que é Paula e não é Paula. Tudo se corresponde.

Paula Rego: Histórias e Segredos, é um documentário clássico, naquela fórmula tried and tested,  tão familiar que nem chega a aborrecer. Nem por isso é menos bom. Às vezes, o filme é indeciso. Entre a voz off, o off screen e on screen, não sabemos muito bem qual o lugar que o realizador escolheu ocupar. Mas isso também não interessa muito. Ele está lá. Ela está lá, ocupa tudo, como os seus quadros.

Paula Rego é um génio, provavelmente vibra numa frequência diferente da nossa, mas é um génio humano. Como nós. Não tem nenhuma poção mágica para enfrentar a vida, só faz o melhor que pode (às tantas diz: “o trabalho é o mais importante”). É um génio sem filtro e sem filtros. No filme, estamos perto dela. E isso é bom.

(Já não vamos a tempo de ver o filme no cinema, mas parece que hoje vem com o Público, por isso é aproveitar.)

The Dance 1988 by Paula Rego born 1935

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