E la nave va

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Não deve ser por acaso que em algumas línguas “navio” é uma palavra feminina. Em italiano e em inglês – tão dados que eles são a baralhar os géneros – “navios” são gajas.

Tem sentido. Mesmo quando pesam várias toneladas, mais do que sulcar as águas, estes colossos deslizam, levitam. Como uma mulher verdadeira se passeia pelo mundo. Fininha ou copiosa, será sempre borboleta, libélula, gazela.

Em português, pelo contrário, os navios são machos. Daí que a expressão “ficar a ver navios”, dita deste lado do charco, perca um bocadinho de élan.

Mas afinal, quando alguém se põe ao largo, quem é que fica a ver? Geralmente, são eles que ficam de mãos a abanar, a vê-las passar, enquanto elas se afastam, mais ou menos indiferentes, mais ou menos distantes, às vezes com descarada sobranceria. Pelo menos é isso que os homens, sempre com queda para se armarem em vítimas e demonizarem as mulheres, gostam de fazer passar. Mas também sucede o contrário, e aí são as fêmeas que ficam no cais. A ver navios. Bué deles. À espera. Adeus, adeus. Acontece às melhores, believe me. Pobres Penélopes doidas de amor. Perdoai-as, que não sabem o que fazem.

Vem tudo isto a propósito de uma visita que fiz, no início do ano, a um destes gentis gigantes marítimos. Era uma visita guiada, num grupo de jornalistas convidados para ficarem a conhecer de perto e por dentro um dos navios da frota da Napolitana MSC Cruzeiros.

Foi épico. Por exemplo, foi a primeira vez que entrei num casino. A parte das mesas, das máquinas, das roletas, quero dizer. Fabuloso. Rien ne va plus, que são outros os meus vícios. Mas há um Casino a bordo, oh yeah, e isso é digno de registo. E um teatro, com uma plateia que nunca mais acaba, espectáculos todas as noites. E uma data de restaurantes, para todos os gostos, e duas piscinas e um ginásio e até um clube para criancinhas, benza-o deus. Bem diz o senhor meu pai que a vida está cheia de mistérios e de surpresas. Quero dizer, um navio com uma disco flutuante, bolas de espelhinhos, e várias piscinas aquecidas é bastante previsível, mas um teatro?

Foi uma manhã de primeiras vezes. Não foi a primeira vez que vi Lisboa do Tejo, mas foi a primeira vez que vi Lisboa do Tejo assim tão alto. Vista do deck, não sei quantos metros acima da linha da água, Lisboa é ainda mais linda. Olha-se nos olhos, uma linha recta que vai da ponta do nariz até à cúpula do panteão. Isso sim, é um luxo.

Nesta navio – que não podia ter outro nome a não ser Splendida- subimos as escadas a pisar cristais Swarovski (ninguém se magoou, estavam no interior dos degraus de acrílico que nos conduziam da entrada aos pisos superiores). Na sala havia um piano e em cima nenhum copo e muito menos veneno. Só brilho, brilho, e brilho, tanto que até dói e tanto que até nos esquecemos dele. Parece tudo tão simples.

Não faço ideia do tipo de pessoas que embarca num love boat assim. São muitas. Felizes como nós. Tontinhas como todos. Cada doido com a sua mania. E la nave va.

(na foto Loulou versão Cannes derrière les lunettes a punto de embarcar)

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