Uma Família de Flâneurs no Walk & Talk

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Não sei o que levaria para uma ilha para além dos meus amores, mas dos Açores volta-se sempre de alma lavada. Tanto azul, tanto verde, e a minha favorita: a pedra vulcânica, negra, granulosa, que tão intensamente e a seu gosto recorta o mar.

Cada fim é sempre um princípio e por isso voltamos na esperança que desta vez seja de vez.

Nunca é.

O que volta sempre – já é uma tradição e isso até assusta num festival à margem, ao largo, orgulhoso de baralhar as fronteiras entre a periferia e o centro – é o Walk & Talk, que já vai na sétima edição.

Este ano não falhei, resistindo heroicamente ao espírito dissuasor das crias que, das Furnas a Ponta Delgada – são 45 minutos-  me perguntaram várias vezes, com notória inquietação:  “Mãe, mas quantas exposições vamos ver hoje?”,

Umas dezassete, pelo menos.

(Mãe, mas disseste que viemos aos Açores para estar em contacto com a natureza.

Isso, isso, cale-se menino e atente na serenidade bovina. )

Não vimos dezassete. Não tivemos tempo para tudo. Esperavam-nos os banhos em Porto Formoso, a descida à Lagoa do Fogo, a Ferraria e as suas enchentes de maré vaza. As Lapas na Caloura e as cracas que nem vimos, só suspirámos. E os banhos, sim, as sopas multitudinárias nas caldeiras que fervilham pela ilha.

Mas espreitámos um bocadinho do festival de artes, que, como dizia um Açoriano, começou por acontecer sobretudo fora de portas, no circuito de arte pública que se tornou célebre, e hoje ocupa várias galerias e museus. Não me pareceu assim tão domesticado. Há um bom equilíbrio. E uma programação séria, rica, intensa e intensiva, com nomes sonantes e emergentes, e de variadíssimas latitudes, áreas e sensibilidades (artes design arquitectura filme música dança).

Ao que fomos. Na estreante galeria Walk & Talk, no coração do “Quarteirão”, o bairro antigo de Ponta Delgada, a exposição Message in a Bottle, com curadoria de Diana Marincu, era a introdução perfeita a um festival multidisciplinar que, sem um tema propriamente dito (a não ser talvez a relação dos artistas com a ilha que os recebe) tem liberdade para ser o que quiser e bem entender. E ainda bem.

A galeria é o epicentro do festival, mas as ondas estendem-se por toda a ilha: até à Ribeira Grande (onde estava uma teia, rede, soberba da japonesa Akane Moriyama) , às Furnas (no Parque Terra Nostra onde, num jardim de plantas pré-históricas, as cycadales, a dupla BenandSebastian colocou o exótico dentro do exótico, virando-o de pernas para o ar, e em miniatura, lógico) ao fim da ilha, que é o mais bonito fim do mundo, na Ferraria.

Mais perto, na rua ao lado, a livraria-galeria Miolo recebia uma exposição pela qual nutro um “carinho especial”. Porque envolve vulcões, artistas que admiro, ilustração e serigrafia. Chamava-se Depois do Vulcão, era um projecto da Lavandaria e há algumas fotos aí em baixo. Trouxemos uma das rochas pacientemente embrulhadas num mapa finíssimo pelo Sam Baron e um poster cheio de desabafos-impropérios do Hugo Oliveira. Podíamos ter trazido muitos mais (por exemplo, Elliot Burford, mas é só um exemplo) só que não caberiam todos na mala.

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Azul azul: a impecável sinalética do festival é mais uma vez assegurada pelos Vivoeusébio.

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Eu tenho um coração vulcânico: Found Stone, de Sam Baron para a colectiva Depois do Vulcão, um projecto Lavandaria para o W&T.

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Se está na Internet é verdade,  se está em papel é real. Livros do mestre encadernador e dourador Carlos Guerreiro para a Lavandaria

A seguir, entrámos verdadeiramente no espírito da coisa e fizemos o que nos pediam: andar e falar. Andar em direcção ao Campo de São Francisco a falar sobre o que nos rodeava: a cidade, as sobreposições entre o velho e o novo, as impressões da natureza, as dos artistas, o que íamos ver a seguir (procurávamos um coreto). Flâneurs famintos, também discutimos a quantidade de sandwiches de bolo lêvedo que nos esperavam  (crias vorazes e insaciáveis, o que é o almoço, o que é o jantar, podemos comer um gelado).

Misturando intuição e bom senso lá chegámos. Uma praça que é um campo aberto, uma igreja, o coreto. Nele estão suspensos vários tubos de metal que replicam a estrutura arquitectónica do coreto e agem como “objectos ressoadores” do som. É um dos dispositivos de Ricardo Jacinto, que no Walk & Talk integrava o circuito de arte pública,  este ano brilhantemente – tenho mesmo de carregar na adjectivação- co-comissariado pelo colectivo KWY. Na performance inaugural, Ricardo Jacinto improvisou uma peça para violoncelo, tocando na parte inferior do coreto. O público assistia lá em cima enquanto o som era captado por microfones instalados no instrumento e difundido por altifalantes. Alguns altifalantes eram neutros, outros emprestavam cor ao som que ressoava no espaço. O concerto foi gravado e depois montado, em várias camadas, para criar “uma espécie de manto harmónico” que passa em loop, e nos puxa para o centro da praça, ao mesmo tempo que se mistura com a envolvente. O som ocupa o espaço, é moldado por ele, ganha corpo e textura, torna-se táctil. Quando nos aproximamos dos tubos, encostamos a bochecha, ou a palma da mão, e eles vibram. Estamos onde estamos.

Ricardo Jacinto explicou que este concerto- instalação é uma continuação do projecto Medusa que desenvolve há três anos, e no qual articula um instrumento com uma pequena arquitectura. O nome  tem a ver com a organicidade do sistema, com a sua própria materialidade “que não tem um esqueleto fixo mas se adapta, com uma lógica um bocado fluida”. Não tirámos fotografias decentes, mas podem ver aqui.

De volta ao centro, calcorreando as ruas da velha Ponta Delgada descobrimos o pavilhão que os arquitectos João Quintela e Tim Simons construíram junto ao Teatro Micaelense, em alinhamento perfeito com a rua e um risco de vista para o mar. É uma estrutura labiríntica de madeira (açoriana) coberta de rede e com chão pedrinhas vulcânicas. Há uma relação com as famosas portas da cidade e há um eco da torre do teatro micaelense no volume vertical. Estamos onde estamos, não há dúvida, e não podia ser mais site-specific.

Daí até ao Museu Carlos Machado para ver a exposição Naturalis Historiae: Quando é que se viu pela primeira vez um crocodilo nos Açores? de João Paulo Serafim que transforma as peças de museu em outras peças de museu.

Não foi tudo mas foi bom. Para o ano há mais. E é sempre bom deixar algo por fazer, para ter mais razão para voltar.

(as fotos são oferta da casa e durante a semana há mais)

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Invertem-se os papéis e as etiquetas viram arte.  Da exposição de João Paulo Serafim no Museu Carlos Machado

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Um crocodilo nos Açores? Evidentemente.

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Yu huuu para o ano há mais

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