#Alesscuratedlife

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Ontem fomos ali almoçar à Sardenha e quando o Sol se pôs atrás da Serra levantámos arraiais. Às oito já estávamos em casa. Tirei várias fotografias e publiquei uma no Instagram, ciosa de partilhar com o mundo aquele bocadinho de paraíso. Recebi dezassete coraçõezinhos bandeirolas, amorosíssimos todos, e já pude dormir descansada.

A fotografia mostra a pedra da Anicha, rodeada pelas águas cristalinas da Arrábida, lugar que cá em casa costumamos tratar, em falta de outro nome que se lhe aproxime em  grandeza, singelamente por Paraíso. Aquele rochedo poderia chamar-se Pietra dell’Aniccia e não seria diferente. Seria só mais longe.

Estava um dia maravilhoso, e até a água, de costume tão arisca, parecia colaborar. Tomei vários banhos, todos eles refrescantes e silenciosos, nenhum deles seguido do costumeiro gritinho catártico pós imersão.

Claro que nas minhas costas se estendia todo um areal pejado de gente.  Povoado e bastante poeirento, por sinal, mas a perfeição não existe. Montes de tattoos, tipos de tanga, famílias inteiras protegendo-se do Sol em tendas Sport Billy, até uma espanhola com boias de silicone y su Chihuahua atrelado a uma coleira cor-de-rosa, onde cintilavam, tremelicantes como o bicho, algumas tachas rocanróle.  Havia a barraquinha dos gelados, milhares de gaivotas pedalantes, quitadíssimas com os seus escorregas coloridos, canoas em barda, toalhas, ancinhos e baldes, geleiras, cadeiras, enfim, o costume.

É isto o Inferno? Claro que não. Também não é um paradise of seclusion. É só o paraíso terrestre. Os humanos a fazerem de humanos. O dia não foi menos maravilhoso por estarmos rodeados de gente. Provavelmente, até teve mais graça. As crias deliraram. Exploraram as rochas, mergulharam sem medo, pedalaram e deslizaram pela água até se fartarem. Comeram gelados e batatas fritas. Todos besuntadinhos e felizes. Tenho fome, tenho sede, podemos isto, podemos aquilo, mãe o que é o jantar.

Claro que nada disto fica na fotografia porque vivemos – uns mais que outros, mas quase todos no fim – uma vida curada. Somos editores, curadores e comissários da nossa vida pública, só que ninguém nos paga. Ninguém que esteja preso na rede escapa a isto. Isto é a vida pública. Não nos iludamos, que não desaparecem as fronteiras. É sempre curado, com diferentes graus de loucura. Não sei se a vida privada, e, num degrau abaixo, a vida íntima, ficam realmente de fora.  A vida real, essa, fica de certeza. Chama-se enquadramento.

No outro dia, um amigo agradecia ao Facebook por nos mostrar, em directo ou com ligeiríssimo delay, as férias de toda a gente. De repente, aquela pergunta clássica de fim de Verão “Então essas férias, foram boas?” deixa de fazer qualquer sentido. Não só porque já sabemos tudo sobre as férias de toda a gente, como também porque sabemos que toda a gente teve umas férias absolutamente imaculadas. Azulinhas, ilimitadas por infinity pools e iluminadas por gloriosos sanesétes.

E depois chegamos ao ridículo de nos cruzarmos com alguém no supermercado no meio de Agosto e levarmos um abalo. “Mas tu não estavas em Pantelleria? Ou era na Islândia?”. Quer dizer, esta manhã. “Mas o que é que estás aqui a fazer?”. Larga-me esse molho de espinafres e volta para a vida real.

A vida real está lá fora, babies. Muito, muito fora.

Claro que somos todos livres de sair quando quisermos. É só deitar fora o telefone esperto e adquirir um telefone telefone, daqueles que só fazem chamadas. Um telefone zing, que é o mesmo que chic, só que mais. Mas para isso era preciso deixarmos todos de ser narcisos, e voyeurs, e cuscos, e carentes. Era preciso que todos perdêssemos o medo de desaparecer e começássemos a existir.

É um pânico terrível porque todos queremos imenso ser amados. E nas redes sociais o amor é infinito. All is full of love, já dizia a outra maluca e o mundo ainda não era isto. E nem sequer é preciso pôr os óculos cor-de-rosa para nos apaixonarmos todos uns pelos outros, como se estivéssemos todos em ácidos, porque o software vem cheio de filtros.

Que atire a primeira pedra quem não tiver sucumbido. E que atire a primeira pedra quem não precisar de massagens ao ego para sobreviver. Uma coisa é a solidão, outra coisa é estar só,  e esse é o problema. Quase ninguém sabe estar só. Somos todos turistas patológicos, a coleccionar postais das nossas vidas e das vidas dos outros. É por isso que tenho cada vez mais saudades do mundo de ontem. E é por isso que, carneira seguindo a carneirada, todos os dias, mesmo em esforço e contra o vento, prefiro marrar e tentar estar um bocadinho só e simplesmente onde estou.

(a fotografia não é do Portinho, evidentemente, que eu pelo menos nunca lá vi ondas deste porte. Escolhi-a por ter carneirinhos, e me parecer apropriada para este post esquizofrénico. Também por estar deslocada, o que me parece importante nos tempos que correm. Também não é em nenhum secret spot, nunca fui avarenta e não quero o paraíso todo só para mim (se não queres mostrar, não mostres, mas poupa-nos a soberba). É em Porto Formoso, na ilha de São Miguel, outro lugar que, não sendo o paraíso do isolamento, foi feito para se estar mesmo bem)

 

 

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