No Minho sê Minhota (Paredes)

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Levei comigo para Paredes, no meio de latas de atum (com alecrim, não há necessidade de fazer figuras), um livrinho de Stefan Zweig (O Jogador de Xadrez) e as Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco. (S., que apesar de ter transitado para o 4º ano, continua a inventar, quer saber:  “Novelas do Moinho?. Ah ha ha, quem é que anda a ver telenovelas num moinho?” Ninguém, amor, está tudo bem).

Li-as no conforto da tenda, alumiada pela frágil lanterninha suspensa, e comprovei mais uma vez como é verdade isso de os livros nos transportarem para outros tempos e lugares. Às vezes dá um jeitão. Stefan, Camilo: obrigada por me salvarem da barbárie. Foi muito salutar estar de repente a bordo de um navio todo chique a assistir a uma partida de xadrez entre gente civilizada, ou em cima de um açude a ver o rio passar, redimindo tragédias, e abstrair-me da selvajaria que me rodeava. Não quero ser politicamente incorrecta – embora me pareça, dado o estado do mundo, que é cada vez mais urgente sê-lo, e de preferência com todos os dentes – mas a juventude está perdida.

Para chegarmos à tenda, era preciso atravessar um campo de batalha devastado, em constante e orgânica mutação. Aquilo era uma versão a céu aberto de Feios, Porcos e Maus. Uma Faixa de Gaza com um cheirinho a Game of Thrones, depois de Daenerys ter arrasado os Lannister até não poderem pagar mais uma dívida.

A juventude está perdida e uma pobre mãe de dois apoquenta-se. Quer dizer, pergunto-me se terei em casa dois Átilazinhos disfarçados de cordeiros. Provavelmente tenho. O mais impressionante da experiência de acampar em Paredes de Coura durante quatro noites foi o contraste entre a porcaria e o aprumo. Depois de passarem uma semana a javardar e a alarvar como bestas, no dia de levantar arraiais, os meus vizinhos decidiram prestar homenagem aos seus egrégios avós e comportar-se como homens. Era vê-los, vassourinha na mão, a varrer o chão das tendas antes de as dobrar conscienciosamente, como sopeirinhas hipócritas (ui, já fui). E a esvaziar os flamingos com verdadeira devoção, sim, que não lhes faltem os flamingos que o Coura não seria Coura sem o seu bando de aves exóticas plastificadas a boiar.

É importante que fique claro que nada disto tem que ver com a organização do festival. Tirando o overbooking  – 25 anos, 25 mil pessoas – correu tudo muito bem. Os duches, as casas de banho, mesmo o acesso à comida e à electricidade para carregar os telefones espertos, tudo funcionava como se espera que funcione um acontecimento desta natureza. Só acampa em Paredes quem quer, e quem anda a chuva molha-se.

E depois. Ao que íamos. Música. Não sei quem são os programadores do festival, adorava saber, mas só posso tirar-lhes o chapéu, evidentemente. Obrigada por trazerem Car Seat Headrest, e King Krule e o king Benjamin, biensûr, e os intensos Future Islands, e os alucinados Foxygen, e mais uma data de nomes gigantes que nos esmagaram, elevando-nos. A música é inexplicável, pode ser terapêutica, e provavelmente o caminho mais curto para se chegar ao âmago de alguém.

Obrigada aos Deuses por me terem levado aquele anfiteatro sublime na noite em que os BadBadNotGood subiram ao palco. Não sei se foi o melhor concerto do festival, para mim foi dos melhores concertos da vida. Incrível como um imberbe de 20 e poucos anos, drumsticks a fazer de batuta, põe uma plateia inteira de joelhos e esse acto de inesperada vassalagem é libertador. Bem vistas as coisas, pode ser que afinal a juventude não esteja assim tão perdida.

 

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