Um Lugar Incomum (O Pássaro e o Elefante)

icon-06

7

Tenho uma história inacabada com o meu filho S. que se chama “Um Tucano no Pólo Norte”. Na verdade, não é bem inacabada. É uma história apenas começada. É quase só um título. Pode ser tudo.

Lembrei-me desta história quando ouvi o título da exposição que Miguel Vieira Baptista apresentou no DIDAC, em Santiago de Compostela: “O Pássaro e o Elefante”. A associação  explica-se, é óbvio, pela proximidade ornitológica. Mas é sobretudo pelo lado lúdico que as coisas – tucanos, extremidades da terra, pássaros, elefantes – se aproximam. E não podia ser sempre assim?

Apesar de comum, a relação que estabelece entre um pássaro e um elefante pareceu-me tão cómica como a possibilidade de um tucano aterrar desprevenido no Pólo Norte e sentir-se bem.

Mas esta sou eu. Apesar do título luminoso e endiabrado, quando fala sobre o seu projecto, Miguel Vieira Baptista suaviza-lhe a intenção humorística.

Para o designer, é muito mais uma questão de rigor, de obsessivo rigor, e, está claro, é sobretudo uma questão de escala. E dos lugares das coisas. Lugares incomuns.

(Na verdade, o humor pode ser extremamente rigoroso, e então vem-me à cabeça Buster Keaton e a maneira como planeava milimetricamente cada uma das suas aterragens e perfurações de janelas de enfiada, para que tudo batesse certo).

“Uma das coisas que me interessava era explorar o lugar, o espaço que se cria” explica Miguel Vieira Baptista sobre a coleção que liga dois objetos idênticos, um grande, um pequeno, num ponto muito preciso, para criar um objeto novo. “Por exemplo, uma mesa em cima de outra mesa cria um espaço por baixo”.

Do espaço surgem espaços e nenhum lugar é um lugar qualquer.

O pássaro pousa sobre o elefante. Mas pousa num ponto exacto. É esse ponto que interessa. Cada peça  – uma mesa, uma cadeira, uma taça, um candeeiro – encena esse encontro de uma maneira irrepetível e inseparável. A intenção é brincar com a escala. Interpelá-la. Mas as aparências enganam. Neste jogo de duplos, de replicações, nem tudo o que parece é. “Não é uma redução à escala real, tivemos de fazer pequenas afinações” explica Miguel Vieira Baptista. “A escala distorce imenso, e há muitas coisas que tivemos que corrigir por causa da perspectiva”.

A cadeira, por exemplo, é a peça que tem mais acertos (está aí em cima). Se a redução fosse a uma escala exacta, como se usássemos um pantógrafo 3D, o resultado seria fiel, mas não seria não seria visualmente equilibrado, nem funcional.

“Por um lado queria que as pessoas olhassem e percebessem que são dois bancos, mas tinha de funcionar como uma cadeira”.

A coleção, que foi apresentada no DIDAC em parceria com a galeria portuguesa Appleton Square, foge da lógica industrial, numa edição fechada de 1 a 5 para cada peça.

A ideia surgiu há uns anos, quando Miguel Vieira Baptista desenhou uma mesa para a Loja da Atalaia: “Nessas mesas havia uma caixa em cima de uma mesa. Era a ideia de ligar um objecto a outro. Como uma caixa que trespassa o tampo ou uma caixa que está quase a cair”. Depois, o designer percebeu que podia alargar esta ideia. Começou a pensar em outros objectos, ligações. Pôs-se a “estender a massa”. Mesa. Armário. Cerâmica. Candeeiro de tela. Foram surgindo objetos, sempre precisos e convidativos, no sentido em que instam a parar, contemplar, perguntar, perceber. Como tão bem explica David Barro, no belíssimo texto que escreveu para a exposição: “Transpor a escala, converter o pequeno em grande e o grande em pequeno é uma maneira eficaz de perverter a nossa contemplação do quotidiano”.

E isso é urgente.

No meio destes pássaros placidamente pousados sobre elefantes, acordamos para um détournement levezinho, uma pequena provocação, em que as coisas, estando precisamente no seu lugar, estão também, sempre, fora dele.  É isto que intriga e é isto que emociona.

“Cada objecto é um e ele próprio”, como diz Miguel Vieira Baptista, para concluir: “É a minha vida. Vou-me construindo a partir dos objectos que vou fazendo”.

(as fotografias são do Ivo Oliveira Rodrigues. Para ver enquanto esperamos que a exposição estreie por cá).

14.jpg

4.jpg

 

 

 

 

 

Anúncios

Respond to Um Lugar Incomum (O Pássaro e o Elefante)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s