Possibilidades

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Parece que na Islândia, que é o país que publica mais livros per capita, há uma tradição de Natal que consiste em oferecer livros no dia 24 e passar a noite a lê-los. Assim como se não houvesse amanhã. Chamam-lhe avalanche de livros (a palavra é “flod”, que dá origem ao termo Jolabokflod).

É uma ideia belíssima. Fiquei mesmo comovida. Sou suspeita, porque gosto muito de livros. Há muitas coisas na vida que nos dão prazer, mas ler um livro sentada numa bela cadeira debaixo do sol com a intensidade certa, com uma paisagem de cortar o alento ao fundo, ou ler um livro esparramada no sofá enquanto mastigo a minha comida confortável preferida, isso é muito bom.

Por isso fiquei cheia deste oxímoro, uma inveja boa dos 329,000 islandeses (são poucos, mas só podem ser bons) que podem passar a véspera de Natal à frente da lareira com um bom livro nas mãos, ou debaixo de um edredon super leve navegando num mar de folhas. Que maravilha e que sossego.

Nem me apetecia falar do frenesim consumista do Natal. Passei-lhe ao lado olimpicamente. Porque a tendência, com o tempo, é aprendermos a distinguir o acessório do essencial. E o essencial, por muito que nos queiram impingir o contrário, não são as wishlists desta vidinha.

Depois deste ano imenso, muito bom e muito piiiiiii, a minha wishlist é leve, levezinha. Não tem coisa nenhuma (ou quase). O mundo já está cheio de coisas, e  as pessoas já estão cheias de coisas, e a maior parte delas são inúteis, supérfluas, redundantes. As pessoas não são coisas, nem se definem pelas coisas. Como a futilidade não é o mundo. O mundo é outro. Bonito. Simples. Despido. Abundante. Organizado. Revolucionado. Em permanente mudança.

Nesse mundo, os objectos são nossos amigos. Estão lá para nos perfumar a vida, e torná-la mais simples, inteligente, fácil, interessante. Acumular não é cool, não. Exibir tão pouco. Cool é não precisar de atestados de coolness. Cool é encher-se daquilo que se é, ao mesmo tempo que fugimos do nosso umbigo. Centrípeto umbiguinho. Desfazer-se de tudo o que não tem sentido. Substituir o mau pelo bom. Rodear-se apenas daquilo que importa, que nos faz falta, que nos faz bem.

Só assim podemos criar espaço para que tudo seja possível.

(Este Notebook da Colönia, no Porto, tem tudo para nos fazer felizes. Mete uma série de páginas em branco, sem tinta, sem mariquices. E um tabuleiro de xadrez. Está a venda na loja estúdio, e na Invicta fazem-se entregas gratuitas, de bicicleta. Saibam tudo aqui, que vale a pena. No final é isto: Emptiness doesn’t mean an absence of soul; it rather constitutes a blank field: a canvas ready for action.)

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