Grande Novidade (Ano Novo)

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O ano começou como uma manhã lavada, fresca, fresca, veio chuva, veio vento, veio frio, e ainda não tinha sentido essa grande novidade nas ventas como hoje. Estava uma manhã de glória e o meu filho aponta para o céu e diz olha que bonito. Cinzento em fios prateados de nuvens e uma luz louca e uma luz nossa. E depois dizem que a Internet deu cabo da nossa capacidade de olharmos para as estrelas. Não deu coisa nenhuma. Deu cabo de muita coisa, mas lá olhar para o céu, olhamos. Mesmo que seja só para tirarmos fotografias. E fazermos postais. E partilhar imenso. E marcar com tantos e tantos coraçõezinhos palpitantes.

De maneira que olhei para o céu e tirei uma sequência de fotografias imparáveis, intangíveis, pálpebras obturadores, os meus olhos sedentos e serenos, tudo revelado cá dentro, gravado cá dentro, e o meu filho tem a fotografia dele, que é diferente da minha, e está perto da minha, e algum dia talvez se encontrem numa memória distante e improvável feita dos dois.

Nesta manhã primeira, a caminho de casa para retomar a empreitada, cruzo-me com uma data de coisas inaugurais e significativas. Grandes novidades, das boas. Há um pai que improvisa um jogo de rugby com os três filhos pequenos. Estão muito sérios. Estão muito divertidos. De bibe e de bola, avançando pelo jardim naquele passo tão inteligente e singular: é preciso recuar para avançar, recuar para avançar. Há uma gorda a dar chutos no PT como se não houvesse amanhã, não sei se é cardio, se é kick, mas é boxing e a mulher está feliz. Do outro lado da rua, passa um senhor francês com dois copos de papel na mão, dois cafés. Apressado. Apaixonado. Não sei se é francês mas lembra-me outro senhor francês fininho e com os mesmos cabelos prateados, e se não é passa a ser, sans doute. Não fui ver o Nepalês dos jornais, abençoado sorriso e aquela saudação, fiquei-me pelas gordas e hoje não me apeteceu trazer o jornal.

Ontem sim. Tenho estado atenta às campanhas dos jornais (NYT, Expresso, Público), e todos falam da “verdade” contrapondo-a ao monstrinho das fake news, como se isto não fosse tudo um colossal fake. Como se ainda não tivéssemos percebido. Grande novidade. A verdade agora é um luxo. É preciso pagar por ela. E é justo que se pague.  Mesmo que ela não exista, quem não reparou e ficou a olhar? Eu pago o meu jornal. Compro-o no quiosque. Até assinava o online se não tivesse tantas fake news grátis com que me entreter. Entertain us, lá cantava o outro.

Dizer “jornalismo” só não basta. Agora é preciso cair no que devia ser uma redundância, e dizer “jornalismo independente”. O quarto poder. Mas os poderes não deviam ser independentes? Deviam, mas não seria a mesma coisa.

Leio o jornal e verifico que há partidos que insistem em votar contra a evidência científica e outros, pior ainda, que lavam as mãozinhas – sapudinhas, politicamente correctas – na “liberdade de voto”. Que há imenso espaço para lugar nenhum. E depois chego à página 43, onde está o texto do Miguel Esteves Cardoso e respiro de alívio. Nem é dos melhores textos dele, digo eu. Mas está lá, a olhar o céu. E é sobre Lisboa. E sobre as coisas verdadeiramente verdadeiras. Termina assim: “Vivi vinte e tal anos em Lisboa até 2005, todos os dias e todas as noites, batendo toda a cidade. Grande novidade: Lisboa já era deliciosa naquela altura. Havia muita gente e muita coisa para fazer. Comia-se e bebia-se bem. E divertíamo-nos também. Quem diria?

 

 

 

 

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