O Fogo e o Gelo

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Não é preciso ter um coração vulcânico para derretermos, feitos lava, perante esta série de quadros de Júlio Dolbeth, em exposição na Ó Galeria de Lisboa.
É uma história pessoal. É uma história universal.
A Terra demora 365 dias a dar a volta ao Sol e isso é tanto e isso é tão pouco. Um segundo pode inverter tudo e a impossibilidade deixar cair o “im” e converter-se num possível ou a possibilidade rebelar-se ou perder o chão e puf, lá vamos que já fomos. Vice e versa, tu e eu, nós e todos.

A Terra, fêmea redonda e descarada, afinal é mais autocentrada que o luminoso astro-rei, porque também gira sobre si própria. Apenas se revolve, apenas gira, apenas pensa.
Sem saber porquê, ao olhar para estes quadros lembrei-me daquela música da Elis, que é preciso ouvir, mas com o corpo. A letra só não basta, mas ficam aqui uns versos:
“As aparências enganam/ aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo/ se irmanam na fogueira das paixões”.
Júlio Dolbeth é um artista no sentido telúrico do termo. Ele está ligado e liga-nos. Não necessariamente à Terra mas às profundezas que são nossas.
Olhei para estes quadros cheios de montanhas e vulcões e vi-me lá. Somos suspeitos os que amamos os Açores e os que nunca foram à Islândia, como eu, mas já têm saudades de lá voltar. As coisas ressoam quando estamos vivos.
Ele explica:
“O tema gira em torno da possibilidade de uma relação, onde nem sempre os fatores se reunem para que funcione.
Tem a ver com o desejo e com a cumplicidade, mas também com fatores antagónicos como a proximidade e a distância. Estes fatores são geográficos, mas interferem com a parte emocional. Existem alguns elementos metafóricos como o fogo, e as consequências, o fumo, como algo visível mas não palpável. A distância representada como a Terra e a Lua, ou a proximidade com um avião. Há pinturas onde no meio das cinzas, pode germinar uma folha. Há uma mão a segurar um coração, também no meio do fumo. Há um avião que reduz a distância. Há montanhas que podem ser transponíveis, mas que requer esforço. No fundo tem a ver com relações Skype, com Whastapp, com diferenças culturais, com a diferença da língua. Sempre coisas que são boas, mas que também podem originar equívocos.”
E conclui:
“Algumas citações à Islândia, uma viagem que fiz no ano passado e não me sai da cabeça.
 Podia ser os Açores, aliás continua a ser o meu sítio mágico. A questão da Islândia tem a ver com o facto de jogar com cores quentes e frias, o fogo e o gelo, as montanhas são sempre frias, os vulcões quentes.”
(“The Possibility of Us,” de Júlio Dolbeth está na Ó Galeria Lisboa, Calçada de Santo André, 86)
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