Coisa Séria

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Não há explicação para a minha adoração por Capitão Fausto. É coisa séria e piora com a idade. O que tem ainda mais graça quando penso que, com jeitinho, e pelo menos de um ponto de vista estritamente biológico, os Capitão Fausto podiam ser meus filhos.

Bando de meninos. Banda de meninos.

É uma coisa quase obsessiva, de música em loop, de repeat em repeat em repeat até à exaustão. Posso até passar uns dias afastada, ficar longe vários meses, dando o peito a outro som, mas volto sempre. E sempre que volto é que como se chegasse pela primeira vez.

Gosto tanto, que fica contagioso. Gosto tanto, que a música, de hábito entranhada na vida, inseparável daquele outro tempo, daquele espaço distante, daquela pessoa que já se foi, lá se foi, consegue desligar-se de tudo, libertar-se do peso, e ser só tempo, festa e fogo, no eterno presente que se desfaz.

“Morro na praia a 20 passos de ser/ Um gajo formado/ Um gajo pronto a vingar”

Por isso, quando na semana passada recebi um e-mail com um convite para assistir a um concerto quase private do meu bando preferido, esfreguei os olhinhos de contente algumas vezes. Até ver estrelinhas e pirilampos a cruzarem, endiabrados, o céu do meu écran.

Não podia ser. Que maravilha. Um concerto que não tinha pedido, apesar de o desejar ardentemente, a cair-me assim no colo, como um presente dos Deuses. Oh, fossem todas as coisas assim. Tão fáceis. Tão boas. Tão acertadas.

(Este concerto restituiu-me a fé na vida)

A genial ideia –  “excelente iniciativa”, escrevi, com ponto de exclamação e sem ponta de ironia (não cabia em mim de contente), no e-mail de resposta ao convite – partiu da Poças (pronuncie-se “Pôssas”, caso esteja a norte do Mondego, e se quisermos ser fiéis à pronúncia original; ou “Póças”, no caso de integrar a irremediável Mouraria), uma empresa “familiar e independente” que produz vinhos do Porto e DOC Douro desde 1918. Está-se mesmo a ver, de Bragança a Lisboa são 7 horas de distância, ou eram, porque agora estamos em 2018, tudo é mais rápido e sobretudo imediato, e às vezes até melhor, por incrível que pareça, sobretudo no que toca a letras de músicas, e de 1918 a 2018 vai um século inteirinho, ou, como prefere exclamar a generosa marca de vinhos: “São 100 anos, Poças!”.

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Calças curtas e pipas de vinho. O hipster bintáaage. Isto é Poças. Numa quinta do Douro, há 100 anos a fazer vinho do Porto desempoeiradamente. 

Era a ocasião perfeita para fazer uma festa e por isso a Poças – 100 anos dedicados à arte do vinho – decidiu apoiar as artes, celebrando o talento português com uma programação cultural comemorativa que abarca a música, o teatro, a literatura e a arte urbana.

“Bem sei que reconforta/ Saber de antemão/ Que eu não vou pra Comporta/ Saltitar no Verão”

Os Capitão Fausto – talvez a mais fenomenal e contundente lufada de ar fresco na nossa música, em muitos, muitos anos (pelo menos em forma de banda) – foram a escolha para a música, e daí o concerto, a 10 de Maio, no Capitólio. O escritor Afonso Reis Cabral (n. 1990), autor de O Meu Irmão (Prémio Leya) foi a escolha para a literatura, acompanhado por Artur Silva, aka Bordalo II, na arte urbana e a Academia Contemporânea do Espetáculo do Teatro do Bolhão, do Porto, nas artes performativas.

Está composto o ramalhete e embora seja mais que óbvia a intenção da Poças de piscar o olho a um público mais jovem (ou um público que aspira a um regresso à juventude, talvez seja mais isso…), não há nada de mal nisso. Entretanto, temos aqui uma bela ocasião para mostrar como o vinho do Porto pode ser cool e contemporâneo (para além de delicioso, oh néctar divino). O storytelling da Poças é clássico, mas vigoroso: uma marca familiar com um legado importante celebra o seu centenário de olhos postos no futuro, porque o melhor ainda está por vir. Ao mesmo tempo, o talento do “sangue novo” português não acontece por acaso. Não cai do céu, sem mais nem menos, embora a mim me tenha caído no colo. como já expliquei. É que, como a Poças, estes prodígios escolhidos para representar o talento português têm um legado, uma história. Fazem parte de uma família. Por exemplo, ficamos a saber que Tomás Wallenstein, vocalista de Capitão Fausto, é filho de uma cantora lírica e de um contrabaixista. Relembram-nos que Afonso Reis Cabral é trineto de Eça de Queiroz. E que Bordalo é II, porque antes dele houve um primeiro, o avô, aquarelista.

Na verdade, tudo isto não devia ter importância nenhuma, porque somos o que somos e não o que fomos. Mas até tem. É que isto anda tudo ligado. Até a felicidade, diz o senhor Sagmeister: 40% é determinada geneticamente. E o ADN é tramado, para não dizer pior. (o senhor meu pai diria bem pior, FCF, é que isto anda tudo ligado mas o ADN não é tudo).

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(esta foto, tirada com o aifóne, mostra quão perto estivemos da desgraça. É nestas alturas que fico muito muito pirosa e quase escrevo hashtag ilovemyjob)

Enfim, uma história bem contada, um Porto Tónico com uvinha a flutuar, um concertaço memorável, para poucos – “e as elites agradecem” – o nariz colado ao palco, um bando de meninos que tocam como senhores, que perfeição e que loucura, que loucura e que assombro, como se topam, e como tocam, melhor ao vivo, melhor aos mortos, o meu filho S. a dançar, é o concerto inaugural, a sua primeira vez, dança igualzinho ao pai, não abre a boca apesar de saber as letras todas, direitinho e soft, são os genes, é o sangue, sangue novo e sangue de ontem, é ele e és tu e sou eu, é o contágio das coisas boas do mundo, é agora, é agora.

“Trabalhar nunca me fez bem nenhum/ mas é melhor que ver o tempo a passar”

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Em dois mil e dezoito (“dezôito”, se estiverem à beira do Douro, “dezóito” se estiverem a olhar o Tejo a parir de Lisboa. ou até do idílico Ginjal) parece que vamos ter novo disco de Capitão Fausto, depois de terem trocado a Comporta pelo Brasiu, obrigada.

 

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