ARCO en ciel

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Uma notícia sobre a terceira edição da ARCOLisboa (tudopegado) diz assim: “ARCO. Há galerias londrinas que preferiram Lisboa a Madrid”. Isto provoca-me algum espanto. Isto não devia ser notícia. Só apetece dizer:

PUDERA.

Se eu fosse uma galeria Londrina, também preferiria Lisboa a Madrid. Aliás, nem era preciso ser uma galeria Londrina, podia ser qualquer outra entidade ligada à arte contemporânea, collector, marchand, mecenas, curioso, climber, artista, emergente ou decadente, desde que tivesse dois dedos de testa, ia sempre preferir Lisboa a Madrid, para uma feira de arte contemporânea. E muitas outras coisas, na verdade. É bastante óbvio. Mas isso sou seu.

E afinal o que é que interessa se a minha ARCO é melhor que a tua?

Agora. Lisboa está na moda – não vai estar sempre na moda – mas não será só por isso, desconfio, que os galeristas preferem vir cá. É que em Madrid, a ARCO é um monstro, uma avantesma, que cansa só de olhar para o catálogo. São pavilhões e pavilhões de desorientação e luz artificial. Para além de ficar para lá do sol posto. Depois de dar umas voltas, ficamos tontos. Se é uma canseira para quem visita, só pode ser uma tortura para quem tem um espaço de que se ocupar e quadros para vender e sorrisos para distribuir. E deve ser complicado para uma galeria pequena estar sempre a pôr-se em bicos de pés (e, después de todo, eu cá não vi nenhuma Marlborough por Lisboa, alguém viu?).

Em Lisboa, a ARCO tem a dimensão certa. E a luz do sol. É digerível. Próxima. Quase íntima. Vibrante e positivamente agitada. Como um belo dia de verão. E com um restaurante instalado num pavilhão belíssimo e poético desenhado por um gabinete de arquitectos de se tirar o chapéu.  Os artistas, barbudos e carecas, passeiam-se entre os visitantes. O champagne até parece mais vivo e fresco. É um arco-íris. Um ARCO en ciel.

Comparar é uma merda. Temos a luz de Lisboa, e em Madrizzz eles têm a monumentalidade. Temos o Tejo e eles têm o Prado. Temos os pastelinhos de bacalhau (sem queijo, obrigada) ou os peixinhos da horta, para vegetarianos, e eles têm os huevos rotos. Temos o Maat e eles têm o Reina Sofia. Temos o Marquês e eles têm o Neptuno.

E afinal o que é que interessa se a minha ARCO é maior que a tua?

A ARCOLisboa, que é uma menina, vai na sua 3ª edição, e está mesmo bem assim. Não lhe mexam por favor. Está no lugar certo (parece que o compromisso de a alojar na Cordoaria era por três anos) e tem a duração ideal (parece que nem todos estão de acordo. , vá-se lá saber porquê) .Imaginem tirá-la dali, transferi-la da Cordoaria para a FIL. Seria a morte do artista.

Não sei se se fez muito negócio. Para os galeristas e para os artistas isso é importante. Para a própria sobrevivência da feira, isso é crucial. Nem quero saber se é uma feira de nicho ou não. Para quem está de fora, como eu, o importante é que a feira projete e nos aproxime dos artistas que valem a pena, conhecidos e por conhecer. Que nos emocione e agite.

E isso, felizmente, aconteceu. Sobretudo no caso dos artistas portugueses, numa edição onde as galerias portuguesas estavam em maioria (29 em 51), ao lado de galerias espanholas, brasileiras, italianas, e sim, britânicas.

O melhor da ARCO Lisboeta esteve nas pontas. No Torreão Poente, na nova secção Projetos 10 galerias (da veterana Juana de Aizipuru à nova Underdogs) apresentavam um projeto individual de um artista, português ou estrangeiro, conceituadíssimo ou  emergente (por exemplo Fernanda Fragateiro ao lado de maismenos Miguel Januário). Aqui, valeu muito, muito a pena ver o “Verão Quente” de Nuno Nunes-Ferreira (Galeria Juan Silió) e as “intervenções fotográficas” de Mónica de Miranda (Carlos Carvalho Arte Contemporânea). Viva os filhos da revolução (ambos nasceram em 1976).

Ao lado, no sector Opening, 12 jovens galerias (em rigor, 12 galerias com menos de 7 anos) estreavam-se na ARCO. Aqui, entre outras coisas, também valeu muito, muito a pena a paragem na Uma Lulik (novo projeto de Miguel Leal Rios) à volta das fotografias de Henrique Pavão que, como explicava o curador, são uma espécie de “arqueologia do futuro”. Vamos voltar à Uma Lulik, e a Henrique Pavão, pelo que de momento aconselho vivamente a espreitarem aqui para saber mais sobre Now I Became Aged.

Na outra ponta, Torreão Nascente, a secção As Table Are Shelves reunia várias editoras independentes, especializadas em livros de artistas e não só, uma perdiçãozinha.

 

Pelo meio, 51 galerias e algumas bolinhas encarnadas. Não me esqueço de Croft, Helena Almeida, e um solitário Chillida. E os Paiva Gusmão. Montes de coisas que não vi. Montes de coisas que vi muito (João Louro).

De barriguinha cheia (obrigada, minha querida B. pela gentileza dos convites, que chiques!). Para o ano há mais.

(Ali em cima, obra da argentina Liliana Porter na Galeria Espacio Mínimo. Aqui em baixo, as fotos 3, 4,7, 8 e 10 são do Guillermo Galamba. Ou Rodriguez. 50/50. O meu querido broto ibérico.)

IMG_1885Henrique Pavão
IMG_1855.JPGMónica de Miranda
IMG_8629.JPGCaroline Pagès

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IMG_1886Nuno Nunes-Ferreira
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