Das Coisas que se Passam na Província

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Também deve ser da idade, mas agora sim percebo o Miguel Esteves Cardoso quando escreve sobre os pêssegos de Colares ou o eléctrico térmico da Praia das Maçãs. São sempre textos muito bons, daqueles que inspiram respeitinho, daqueles que quase me fazem dizer “Madzinha, tem juízo”, para depois corrigir enquanto posso, no salto, no acto, e acrescentar: juízo coisa nenhuma, sempre faz falta um bocadinho de loucura, no meu caso mesmo muita, para parir um texto de jeito e não pensar no depois.

O MEC escreve sobre essas coisas porque em Colares, ou no Alentejo, esse é o tipo de coisas que realmente nos parecem dignas de atenção. Desde que tenhamos cabeça para isso, évidemment. Não tem nada que ver com uma espécie de encantamento bucólico, nem com qualquer ideia romantizada da vida no campo. Ainda nem deu para perceber. Aqui o silêncio é vasto, mas à noite não se apagam todas as luzes. Há sempre os candeeiros de rua, já dizia a minha bisavó.

Por isso, não é o ideal de sossego que nos toma. É o sossego mesmo. O próprio. Aqui não há nada para fazer. E que bom que é. Não havendo nada, há tanto. Assim podemos olhar devida e demoradamente para os pêssegos de Colares (ou para as ameixas de Elvas). Prová-los com o intelecto antes de lhes pregarmos uma dentada sumarenta e transparente. Podemos amaldiçoar o galo disfuncional que resolve cantar ao meio-dia. Regar as plantas pela mata, e à tardinha também, olhar para um pezinho que brota timidamente, e perguntar-nos se vingará. Ou então acompanhar os gafanhotos insaciáveis:

No estendal provisório, na mesa temporária, nas lajes que ficam todo o tempo que durarem que não será nunca o tempo todo. Não sei se são parceiros para a vida, se a vida dura neles mais que um instante, um dia não são dias, um dia é uma vida, apesar de não serem borboletas efémeras, mas gafanhotos de patas articuladas, pintalgadas, amarelo sobre negro, nem bonitos nem feios, gafanhotos. Belos apenas no seu impulso, no seu salto imprevisível e dourado. Será que sabem onde vão aterrar, será que lhes importa?

Podemos afastar-nos do mundo que o mundo não se afasta de nós. Trago o jornal das arcadas eborenses, o jornal de papel, o mesmo que lia em Lisboa, o mesmo internacional e grande formato. Vou ficar a saber mais sobre robótica, porque é que os chineses se estão marimbando para a Google, como a Itália é racista e como é que os Cubanos, depois de Arenas, vão finalmente poder casar-se em paz. E então vai-se lendo, escrevinhando, espremendo os neurónios à procura de um nome todo catita para um hotel, dando um gole na água com gás, fresquíssima, borbulhíssima, beijando o filho na testa, pegando-lhe na mão enquanto ele deixa, enquanto ela não cresce, e de cria passa a homem e no homem está a cria e está a mãe, e o amor.

 

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