A Vida em Sprint (Correcção)

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Quem migra para a província em busca de paz e sossego desengane-se. Aqui tudo é mais rápido.

Mesmo na planura alentejana, é um vê-se-te-avias.

Ida aos correios despachar uma carta registada: sete minutos.

Périplo à Segurança Social para tratar de um daqueles bicos de obra: 20 minutos. (E uma santa do outro lado do balcão).

Trajeto de casa até ao Pavilhão Gimnodesportivo para depositar o primogénito no basket: três minutos.

Isto em hora de ponta. Na Câmara Municipal, onde se paga a conta da água, demora-se dois minutos e meio a fazer a transacção.

Com todo este vagar, podemos fazer imensas coisas num só dia.

Resultado: uma canseira.

A única diferença é que já não é preciso dominar a arte do multitasking, em que nós, as fêmeas, aparentemente somos exímias. Cada coisa a seu tempo, que temos sempre tempo para tudo.

Só não nos sobra.

Quando soube que ia trocar a confusão da cidade pela campestre calmaria, o meu amigo S. exclamou, tomado pela mesma ilusão que me trouxe até aqui: “Ahhh! The slow life.”

Slow life é o c… meu nome agora é Zé Pequeno!

Ou seja: o Alentejo é uma azáfama.

Isto sem contar com as romarias semanais à capital. É muito pauer. Uma energia daquelas. Puxa-nos, quase nos suga, e a malta esbraceja, para resistir. Reunião aqui, almoço de família acolá, consulta no dentista que não pode esperar mais. I’m late , I’m late, valha-nos Santa Alice do meu coração.

Como boa provinciana, tento matar vários coelhos, e termino lebre stressadíssima, a enfiar compulsivamente moedinhas na máquina da Emel, a maldizer os taxistas (é crónico, é catártico), a proferir impropérios de enfiada e a dar beijos fugidios ao meu pai, porque não há tempo para mais, ainda temos que passar na Manteigaria e abastecer-nos de pasteis de nata, comer um gelado de verdade, passar pela Bertrand para ver se já chegou a ansiada revista, e a seguir uma hora até casa, a ponte, o Tejo e tudo, e depois, enfim, o sossego.

Estou igualzinha aos meus amigos papa-léguas, que lá do Monte Olimpo descem até Lisboa para se misturarem com os mortais – a plebe – quando tem que ser, porque tem de ser, e o que tem de ser tem muita força.

Sempre é verdade que podemos deslocar-nos o que quisermos, percorrer milhas sem fim, fugir e fluir, vir de longe, muito longe, que nunca nos desfazemos de nós. Essa é a tragédia. O tempo é sempre o tempo, mas felizmente há muito espaço para o enganar.

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