#EleSim (lá lá lá lá laiá)

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Tenho as costas quentes enquanto escrevo, e é mesmo o Sol que aquece, aqui onde estou, óculos de Audrey, t-shirt Picassiana, panamá fake que foi o que se arranjou.

Este mês de silêncio e rebuliço tem passado a correr. Muito atarefados todos, nas nossas vidinhas, olhamos o mundo pasmados pelas piores razões.

O mundo anda tão transtornado que tive de parar para ver. Voltei às arcadas, trouxe o jornal. Sentei-me com as crias à volta do televisor, a ver o furacão passar. Atentem nisto: nunca a Península Ibérica tinha sido atingida por um furacão. Nunca. Quem o diz é Javier Bardem, defensor dos Oceanos, no seu perfil de Instagram. Então eu acredito, porque é um actor-feito-influencer, claro, mas sobretudo porque é o Bardem, que é um tipo correcto, um tipo incendiário, um tipo que até é possível encontrar no elevador, com belas ideias para salvar o gélido continente que se derrete a olhos vistos.

Então sentamo-nos à frente do televisor, e pasmamos em conjunto, enquanto os jornalistas inventam notícias, arriscando a vida (?) para sobreviver, passando ao lado do que realmente importa, convictamente despenteados.

S. olha para as imagens de uma assembleia reunida no antigo Museu da Electricidade e pergunta-se, em voz alta: “Mas o que estão ali a fazer tantos chineses?”. Impertinente criancinha. Iluminada criancinha. Apetece responder, empregando um termo muito utilizado por Ricardo Araújo Pereira: “Sucede que os chineses são os donos da EDP, meu menino”, e é mais ou menos isso.

O meu filho é perito em fazer perguntas enigmáticas, que não sabemos muito bem de onde vêm,  e ainda menos para onde vão, como por exemplo: “Mãe, quantos anos de prisão se apanham por roubar um carro?”. Ao pé disto, a questão sobre os accionistas da EDP é uma brincadeira de crianças.

A seguir, S. quis saber porque razão as pessoas se afogavam no Mediterrâneo. Ou porque é que Trump estava tão irado com os russos. Curiosamente, S. não fez perguntas sobre o Brasil. Ao contrário de 46% dos brasileiros, ao meu filho basta-lhe olhar para a cara de Bolsonaro para ver o filme todo.

E é mesmo isso. Já todos vimos o filme todo (na Europa dos anos 30, por exemplo) e sabemos onde vai parar. Por isso, como se já não fosse óbvio, é gritante e cristalino. #EleSim #EleClaro.

Por isso é tão trágico ver que o mundo inteiro, pelo menos o mundo livre em que nos reconhecemos – um mundo tão unânime e díspar ao ponto de ser capaz de juntar Chico e Freitas – não pode com Bolsonaro (como não pôde com Trump, e vamos parar por aqui). Como dizem os mais ferrenhos ateus, só por milagre.

E esperando que no domingo se produza o impossível, vou-me sentindo como o pai de Siddartha, incapaz de proteger o filho do sofrimento do mundo. No carro desligo a rádio e vou sambando o que posso, como posso, olhos na estrada, filhos no colo, lá lá lá lá láiá.

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