Laifestáile

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A sério que queria imenso escrever sobre todas as coisas que acontecem lá fora, os projectos, lançamentos, produtos, comidinhas, acessórios, peças, com dézaine, sem dézaine, coisas orgânicas, mecânicas, humanas, exposições, hotéis, esplanadas, co-works, lojas, espaços e afins, mas não consigo. Ou melhor, consigo – e ainda o faço, de outra forma não estaríamos aqui, eu deste lado, tu desse lado – só que é cada vez mais raro.

Não sei bem porquê. Será da idade? Será por ter abraçado esta vida vagarosa? Será por andar a ler livros a mais? Será porque o Instagram já faz tudo?

Ao contrário de algumas pessoas que viram a luz (e saíram), e de outras que nunca chegaram a mergulhar na escuridão (e não entraram), eu continuo a ir ao Instagram várias vezes ao dia. Por motivos profissionais, sim. Por motivos pessoais, óbvio.

Diz aquele senhor do Sapiens que os homens inventaram a linguagem para poder cuscar com mais propriedade (aparentemente, o senhor do Sapiens diz vários disparates, não sei se este é um deles mas a mim convenceu-me. O livro é super entertaining, já agora). O Instagram responde bem a esse impulso de querer estar a par de coisas que não interessam a ninguém, a começar pelas vidas dos outros. Mas vai mais longe. É como se fossemos curadores de vidas postiças. Só vemos o que nos interessa. Tudo o resto fica convenientemente fora do nosso campo de visão, logo da nossa existência. Escolhemos as pessoas, os artistas, os lugares e as marcas que seguimos. É extremamente higiénico. Até é perigoso, de tão perfeito e bonitinho. Claro que há perfis “subversivos”. Mas mesmo esses, que agradecemos, estão dentro da lógica de um mundo à parte, um mundo que não existe a não ser nas pontas dos nossos dedos, fazem parte da “nossa selecção”, que definimos e nos define, que nos protege e anestesia. Quando uma marca nos chateia podemos dizer “é irrelevante”, ou “vejo demasiadas vezes” e puf! desaparece. Claro que vem logo outra a seguir, descendo pelo incansável tubo do algoritmo, espécie de cornucópia contemporânea, uma marca pronta para nos vender alguma coisa, ou pedir alguma coisa, nem que seja um coraçãozinho, soprozinho na vela do ego.

Adiante. Está um lindo dia e não vim para aqui para dizer mal. Estava só à procura de uma razão que explicasse este desinteresse todo. O microblogging é capaz de estar a dar cabo do blogging, é isso. Como as revistas boas são capazes de estar a dar cabo das revistas boring. Lá fora há várias. Cá dentro nem por isso. Nenhuma usa a palavra lifestyle, que eu tenha reparado. Podem encontrá-las na underthecover, por exemplo.

Está dito. Voltamos a seguir ao intervalo.

(na imagem a mão de S. a espreitar por cima de Pedro Proença numa exposição M A R A V I L H O S A na Fundação Eugénio de Almeida, à qual esperamos voltar, lá fora e aqui dentro do buraco digital também).

 

 

 

 

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