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Entramos na gruta de Ali Babá e S. hesita uns segundos antes de descobrir o caminho que leva ao espaço das crianças. É um ninho dentro de um ninho.
Estamos na livraria Fonte de Letras, em Évora, e não sei como é que o meu filho me deixou entrar. Se calhar foi porque não parecia bem uma livraria, ou só uma livraria. Se calhar cheirou-lhe a bolinhos.
Geralmente, os meus filhos fogem de livrarias como diabo da cruz. Livrarias são casinos. E eles, que são bons rapazes, não querem expôr-me à tentação. Sabem que lá dentro sou capaz de me perder. Sabem que vou inclinar a cabeça, como o meu pai fazia quando eu era pequena, percorrendo lombadas numa prateleira infinita, que desemboca noutra, e depois noutra, mais abaixo, mais acima. Sabem que todos aqueles livros, abertos ou fechados, capas silenciosas, páginas escancaradas, são capazes de me sugar. Levar-me para um sítio qualquer de onde só saio se gritarem pelo meu nome, se me puxarem pela manga. Felizmente não dura muito e acordo. Posso responder distraidamente mas estou lá. Eles não gostam lá muito de livrarias.
Os livros, toleram-nos. Que remédio.
Mas ali S. está encantado e pergunta: “Mãe, podemos requisitar um livro?”
Coisa que me parece adorável porque há poucos meses o meu filho não sabia sequer o que era uma biblioteca (a não ser talvez o simulacro de biblioteca que existia na escola) e agora que frequenta a biblioteca municipal, todo contente, não sabe distinguir uma biblioteca de uma livraria. Acha que é tudo nosso. Um grab and go anti-sistema.
Em Lisboa também há bibliotecas, claro. Acredito até que sejam boas. Já visitei algumas, e não estou a falar da biblioteca celeste que é a Gulbenkian. Só que não nos passa pela cabeça ir até lá. Estão longe. Está frio. Demora muito. E onde estacionamos o carro? Não têm o livro que queremos. Vamos depois. Mais fácil nas Amoreiras.
Desisto de ensinar o meu filho a chamar os bois pelos nomes. Escolhe lá um livro S., e levamos. Procurávamos o livro sobre o plástico da Planeta Tangerina mas ainda não tinha chegado (entretanto já passou algum tempo e de certeza que o têm) . Trouxemos outro que fez sentido. Havia uma data de rapazes super fora que eu desconhecia, o que me sossegou. Afinal não são só as mulheres que ficam esquecidas, a história é uma cabra e há sempre tanto para ficar a saber.
Não sei se S. ficou a saber mais alguma coisinha. Mas soube de certeza antes da mãe que nas bibliotecas os livros levam carimbos na página 99.
(a gamadíssima ilustração é do genialíssimo João Fazenda, para o NYT Book Review)
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