Activismo (Bela Moka)

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Não sei se continua acesa a discussão (?) à volta da cannabis, passa-me ao lado muita coisa – mesmo coisas por ventura bastante interessantes e importantes – e este blogue em princípio trata de temas levezinhos, nada de drogas, nem pesadas nem leves, nada de eleições, nem de cartazes obscenos a falar de “dinheiro” e “contas certas”.

Nada de Gretas, nem de maléfico lítio, o lítio que tem dado conta da cabeça da minha amiga G. que está lá para cima no Minho a lutar por um colectivo abrir de pestana, e me alerta para o facto desta palhaçada toda activar precisamente os chakras mais baixos, dupla tragédia.

(desmancha-prazeres: este post na verdade é sobre uma cafeteira italiana clássica chamada Moka)

Um engenheiro aquariófilo dizia-me no outro dia que bom, bom é praticar o activismo individualmente, todos os dias, numa espécie de guerrilla solipsista (acrescento eu).  Estive a pensar no assunto e é isso mesmo, embora não tenha de ser só isso. Descobri que também eu sou praticante, apesar de nunca ter visto a questão como activismo. C’est moi.

Posso fazer mais? Posso. Podemos todos. Mas é preciso começar por algum lado, e se calhar o melhor é começar aqui e agora, rigorosamente onde estou. Eu que posso escolher.

Daí resulta o consumo consciente e mais uma data de coisas importantes e inadiáveis, como por exemplo o plástico, como por exemplo o descartável, como por exemplo libertarmo-nos da tirania do imediato, como por exemplo o decrescimento, que ainda não percebi bem como funciona para verdadeiramente funcionar, mas é uma ideia a explorar com muita calma e toda a certeza, ou com toda a calma e muita certeza, mesmo para quem, como eu, respira fundo e em princípio desconfia de certezas.

Claro que esta questão da sustentabilidade não é nada fácil de activar. Puxa-se de um lado e fica a faltar do outro. Tapa-se um buraco e abre-se uma cratera que nem sabíamos existir. Mas com jeitinho vamos lá.

Como diz o meu primo J., que estudou na Suíça e percebe imenso destas coisas, “sustentável, verdadeiramente sustentável, é não fazer nada”. Nem nos mexermos, apenas respirarmos. Vista desse prisma, a Preguiça deve ser o campeão da sustentabilidade do reino animal. Mas nem todos podemos preguiçar tanto quanto seria desejável.

Às voltas com o local e o global, o individual e o colectivo, mon coeur ne balance plus (finalmente!). É preciso começar por algum lado e pode ser mesmo por aqui, substituindo a nefasta Nespresso por uma máquina de café italiana à maneira, desenhada pelo David Chipperfield e fabricada em alumínio pela Alessi.

Para além de ser uma beleza e de ter um preço justo, seja lá o que isso for, faz café à séria, sem cápsulas, com possibilidade de compostagem ou equivalente, nutrindo as lindas plantinhas por esses jardins e quintais fora. Café, por sinal, comprado na Casa Pereira (estímulo à economia local, gentrificação é o tanas), moído à minha frente, pelo senhor de bata azul com o nome bordado na lapela inexistente, embalado num saquinho de papel com uma assinatura que é um mimo: “O Sol, logo que se levanta, vem pedir à Casa Pereira”. Mai nada.

(o problema, em rigor, é a gigante pegada ecológica que o café deixa desde que é produzido, embalado, transportado, até chegar à nossa mesa. Perguntem ao meu primo ou fiquem totalmente descafeinados, se for uma opção. Não é para todos).

Por acaso, o café de hoje nem era da Casa Pereira – já se acabou – mas cheirava bem e sabia bem. Lembrei-me do meu avô, que era um homem bom e amoroso, e comprava o café na Casa Pereira, antes de mim.

Foi ele que me ensinou, sem saber que me ensinava, que o café não se calca, e que quando começa a borbulhar é preciso vigiar e, eventually, retirá-lo do lume prontamente. O meu avô agrónomo que nos obrigava a lavar muito bem as maçãs antes de as trincarmos, porque roer maçãs fazia bem aos dentes, mas aquelas cascas estavam cheias de químicos.

O meu avô fascista que também era activista, e me ensinava tantas coisas sem saber.

(a fotografia nem-de-propósito – pensando no presente como se fosse o passado-  ainda é do telemóvel chinês e está no inshhhtagram do editorialista, que precisa do vosso amor.)

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