Portugal dos Pequenitos

icon-13

Marília-Villaverde-e-Catarina-Wallenstein.jpg

Aviso já que não gosto particularmente da palavra “meritocracia”. Facilmente lhe desliza o pé para o chinelo, enfim, não era minha intenção arrancar logo a matar, queria até controlar qualquer pendor elitista neste texto, mas não encontro melhor recurso expressivo (parece que é assim que se diz agora) e uma mulher não é de ferro, e um chinelo é um chinelo, neste caso poderosa sinédoque ou metonímia, já me baralhei, acho que tenho de ir ao Camões, o lírico e o outro, mas é assim, uma mulher espeta-se logo na primeira frase, porque uma mulher precisa de dizer o que pensa, como pensa.

Aviso também que sou adepta do slow journalism, o que significa que procuro ler e ver as coisas da actualidade que me interessam com alguma distância, tanto geográfica quanto temporal, acumulando revistas inteiras, artigos dispersos, bookmarks digitais e coisas do género durante vários dias, semanas, e até meses depois de terem sido publicados. Não sou uma pessoa desinformada, atenção. Sou selectiva. Tenho o meu tempo. Protejo-me neste sossego fictício, e assim ganho recuo e alguma paz, frequentemente chegando ao lugar do crime muito depois da poeira assentar. Há algumas excepções: não consigo deixar para depois as crónicas do Miguel Esteves Cardoso, ou do Pedro Mexia, se por acaso me vierem parar às mãos antes de tempo e tento não perder o Ricardo Araújo Pereira aos domingos à noite na TV1 (glup), até porque aqui onde vivo não chegou ainda a fibra óptica, e contra uma box arcaica não há argumentos.

Vem este enquadramento a propósito do sururu nacional à volta de um certo discurso proferido por uma “pessoa comum” durante as comemorações do 10 de junho, do qual, em modo delayed gratification, só tive conhecimento três dias mais tarde, num divertido almoço entre amigos. Na verdade, como tínhamos coisas bastante mais urgentes que tratar – como dar cabo de umas garrafas de Touriga Nacional, deliciar-nos com uma  croustillante tarte de amêndoa chegada da capital e jogar uma partida de cards against humanity, por exemplo – deixei o discurso para depois. E ao quinto dia, fui ver.

Posto isto, e apesar de andar a trabalhar intensamente os meus Adho Mukha Svanasana e a fazer imensas respirações da abelhinha, apesar do esforço enorme que faço para manter o meu lado hiper-crítico sossegadinho, decidi cagar no karma e dizer o que penso.

E o que penso é que este país gigante e lindo onde tive a sorte de nascer sem ter pedido  – ou merecido, gosto sempre de acrescentar isto, eu realmente tenho um problema com o mérito – é muito mais do que este Portugal dos Pequenitos que tão tristemente nos pintaram.

É evidente que em Portugal não existe igualdade de oportunidades. É evidente que em Portugal o imobilismo social é a desgraçada regra, a milhas dos países “desenvolvidos”. É evidente que em variadíssimas ocasiões sociais ainda há quem pergunte: “Madalena, quê?”, e se por acaso estiver para aí virada e me dignar responder pronunciando o apelido do meu pai, ainda sou capaz de ouvir “Ah! os das mudanças!”. Só que não, com todo o respeito, pelos das mudanças e pelo imbecil que me perguntou o nome.  É evidente que somos um país de brancos costumes, apesar de todas as ficções que nos foram impingindo. É evidente que aqui como no resto do mundo, quem nasce rico morre rico e quem nasce pobre pobre fica. Na verdade, na maior parte do mundo, num reino muito, muito longe daqui, as pessoas nem sequer têm oportunidades, para começar. Ain’t life a shit?

Pois é.

E estas coisas dão que pensar, enojam, revoltam. É por isso que é preciso abrir os olhinhos. Por exemplo, começando por explicar com toda a clareza e assertividade aos nossos filhos que há muitas maneiras de se “ser alguém”. E subir a um estrado não é necessariamente uma delas. E é por isso que não precisamos de mais discursos destes, para time travelings até à minha alegre casinha já temos os Xutos a acompanhar o sorriso Pepsodent de Cristiano,  ainda por cima com uma linda taça na mão, desenhada por uma equipa de portugueses cheios de talento que ainda não emigrou, curiosamente, apesar do inenarrável fosso entre as massas e as elites.

É que aqui está-se bem. Mas é preciso talvez ter algum mundo, mesmo sonhado, para perceber isso.

Nem vou perder tempo a citar o que foi dito. Está no youtube, quem tiver paciência que veja e tire as suas próprias conclusões. Mais importante é o que não foi dito. O tanto, o tudo, que ali faltou.

Onde estava o rasgo, onde estava a luz, onde estava o estrilho, onde estava o brilho?

Acontece que também eu sou filha da democracia (eu gosto mais de dizer da liberdade). Acontece que também eu quero que no meu país as pessoas tenham oportunidades, que todas as pessoas tenham todas as oportunidades que desejam e precisam, sobretudo a oportunidade de serem felizes, pormenor aparentemente sem importância dentro de determinadas escalas de valores. Mas o Portugal que vejo, e vivo e sonho está tão longe dali!

Posso não ser a portuguesa-tipo, com um bisavô cabo-verdiano, uma bisavó alemã, um bisavô médico, outro advogado, uma bisavó dona de casa, uma avó de esquerda, um avô fascista, um avô do Porto que por acaso nasceu em Maquela do Zombo, uma avó mestiça que por acaso nasceu em Lisboa, um avô agrónomo, uma mãe jurista, um pai quixote, um filho espanhol, e outro de sangue-azul (bem diluído, convenhamos). Mas sou eu, e estou inteira. E também andei num liceu público (e num colégio privado), formei-me numa universidade pública, e – surpresa! – até nasci num hospital público, ali debaixo da ponte em Alcântara, apesar de ser uma burguesinha do Restelo.

Depois, fiz o movimento inverso. Vim da cidade para a província. Alentejo, que coincidência. E é capaz de ter sido uma das melhores decisões da minha vida (não era muito difícil, foram poucas, as verdadeiramente boas). E o que vejo aqui, melhor dizendo, o que vivo aqui, é uma realidade bem diferente daquele cenário pequenino e poupadinho, todo esforço e obediência e dedicação que nos descreveram.

O Alentejo é vasto e desafogado, sim. Também é duro, acredito, embora não tenha já a dureza daquele filme do Sérgio Tréfaut que devia ser de visionamento obrigatório, não fosse coisa de elites (foto aí em cima). E aqui há espaço, largueza, mas sobretudo amplitude de vistas. Este lugar é uma rede, é um ninho, é uma comunidade. E é um ponto de partida ou de chegada, como se quiser. O que não é é um muro.

As pessoas são todas “vizinhas”, mesmo que vivam em lados opostos da cidade, e desejam as “boas melhoras” quando ouvem alguém tossir. Não andam de cabeça baixa, aproveitam cada bocadinho de Sol, muitas vezes deslocando o seu banquinho para o lado da rua onde os generosos raios batem com mais força. Aqui há uma biblioteca cheia de livros e filmes de categoria, uma piscina pública que é um regalo, uma pista para passear no meio dos sobreiros e oliveiras, lugares para os mais velhos e os mais novos. Aqui as pessoas cumprimentam a menina da caixa do supermercado porque a conhecem mesmo, e uma ida aos correios demora em média 3 minutos. Aqui a vida cultural é intensa, há um cineclube, um teatro, e não digo mais nada se não vem tudo a correr para cá. Este lugar é tão bom, que as pessoas fazem o seu caminho, estudam e trabalham, dormem e comem, amam e zangam-se, e francamente parecem estar-se marimbando para as elites.

As pessoas são o que são. A natureza de cada um é fundamental. Uns preocupam-se em subir as escadas, outros preferem contemplar o céu. Uns têm berço (que segundo o meu pai significa “educação”, embora eu ache que é mais que isso, elitista) outros nem por isso. Outros têm berço e estão-se cagando. Uns tratam os filhos por você, outros dizem palavrões, outros ainda fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Uns servem as refeições em salvas de prata, outros trazem a panela para a mesa. Alguns dos que servem as refeições em salvas de prata não se importam de cometer o duplo sacrilégio, para o vinho e para o planeta, de beber vinho num copo de plástico. Uns perguntam os nomes, outros chamam os bois pelos nomes. Uns olham para o umbigo, outros abraçam o universo. Uns não estudam, e vão longe, outros marram que nem doidos e são uns falhados. Uns nasceram para ser felizes, outros são fracos de serotonina. Felizmente, há de tudo. Mesmo dentro de nós, nunca somos os mesmos. Há de tudo. Tudo menos pequenitos. Pequenitos, é que não.

“Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.”

Ricardo Reis

 

 

 

 

Respond to Portugal dos Pequenitos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s