Olhei para estas peças de cerâmica da italiana Paola Paronetto e pensei nos quadros do Giorgio Morandi, que descobri em Paris, não sei bem quando mas antes dos 20 certamente, pela mão do meu padrasto seguramente, quando a vida me parecia vibrante e tremenda e de uma beleza incerta e doce, exactamente como os quadros de Morandi.
Parece que a técnica se chama paper clay, mas a explicação fica para outra altura, quando encontrar algum dos meus amigos ceramistas a quem perguntarei sem pensar “e o que é aquilo do paper clay?”. E se calhar os puristas da cerâmica torcem o nariz, e os ambientalistas tapam o nariz enquanto o torcem, porque mete celulose, mas é bonito que se farta e pronto.
Normalmente, sou mais inclinada para coisas mesmo simples, tão simples que até enervam, sem complicações nem pregas mesmo nenhumas, com o mínimo ruído possível, a maior economia possível, mas aqui abria claramente uma excepção.
E depois a vida dá tantas voltas, mais voltas que a roda do oleiro, e este fim-de-semana encontrei-me numa festa cheia de amigos queridos, mesmo queridos, para celebrar outros 20 anos muito bons, mesmo bons, do meu casal do coração, que me faz acreditar que os Deuses existem e quando querem fazem uns matches imaculados, que se não existissem tinham de ser inventados, e as pessoas são felizes mesmo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e até que a morte os separe porque com a vida podem eles. E nessa festa tiram-nos uma fotografia, eu numa ponta, a noiva ao centro, a outra madrinha à direita, uma de vestido azul, outra de cor de rosa desmaiado, outra de verde azeitona, exactamente como há 15 anos, e estamos tão bem e tão felizes, é um instante vibrante e tremendo e de uma beleza incerta e doce, exactamente como um quadro de Morandi.