Coup de Bey

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Beirute estalou no ano em que eu nasci e começou a sossegar no ano em que a minha mãe levava a minha irmã na barriga. Talvez isso explique a ligação umbilical que senti assim que pus um pé na cidade. Talvez não passe de uma coincidência forçada, engendrada para explicar o inexplicável, um amor rompante, sem aviso,  coup de foudre, coup de Bey.  É possível que para compreender uma cidade desconhecida seja preciso comê-la, mastigá-la, digeri-la nos sucos da nossa própria biografia, e assim, mesmo num plano fictício, torná-la nossa, autobiográfica.

Beirute, tocada por um Sol estridente (obrigada B.) presta-se a isso e muito mais.

Ia com muitas expectativas. De amigos que a tinham visitado, de amigos que ansiavam visitá-la, de amigos que lá vivem e descrevem a sua loucura pulsante e leve com delícia e admiração (obrigada S. e M.).  Quatro dias bastaram para perceber que Beirute supera as descrições mais luminosas, rebenta a escala. Bey bom.

Acabada de chegar, ainda estou a juntar os fragmentos da Beirute que vou guardar para mim. Não é fácil. É bonito. Quero voltar porque é sempre bom voltar a casa.

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Provavelmente vou despejar aqui uma série de clichés mas não encontro outra maneira. Fernandinho bem dizia que todas as cartas de amor são ridículas. Beirute, lambendo as feridas, brilhando ao Sol, merece todas as cartas de amor.

Beirute é frequentemente descrita como a Paris do Médio Oriente, mas a mim, que vivi ao lado de Paris e em contrapartida escandalosamente nunca estive no Rio, parece-me muito mais carioca. Pode ser a baía, o mar, os morros nas costas, a marginal, a arquitectura colonial convivendo com as torres infinitas, a desigualdade submersa, a natureza que rebenta pelo meio da cidade, o contraste amoroso entre o betão (muitas vezes brutalista) e o verde espampanante e solto. Por todo o lado trepam as plantas, explodem as flores, estendem-se ramos, rodopiam troncos.

Durante a guerra civil, toda uma zona da cidade foi chamada de “ligne verte”. Era uma espécie de no man’s land que dividia o lado oriental (predominantemente muçulmano) do lado ocidental (predominantemente cristão). Assim abandonada, ao deus dará, a zona de ninguém foi sendo progressivamente tomada pelas plantas, o que explica o nome. Hoje é o símbolo da Beirute renascida, com espaço para uma imponente mesquita colada a um templo cristão.

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Brutalismo fofinho na antiga Ligne Verte. O edifício conhecido por “ovo” foi um cinema e também a ópera. 

O novo centro de Beirute está longe de ser consensual. Enquanto o brilhantismo da arquitectura impressiona (Herzog & de Meuron, Zaha Hadid em construção, entre muitas outras estrelinhas), os interesses privados, perigosamente misturados com a política, repugnam. Os libaneses não se revêem num lugar higienizado, que perdeu a identidade e a memória. Exceptuando as grandes marcas de luxo, quase todos passam ao lado do grande centro amnésico. Aos sábados de manhã, o Souk el Tayeb, um mercado de produtores locais com os melhores produtos frescos e orgânicos da região e comida deliciosa, sabe a redenção.

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Herzog & de Meuron no centro de Beirute

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Zaha Hadid em construção coladinha ao Souk. Na Universidade Americana de Beirute a arquitecta iraquiana tem outro projeto icónico: o Instituto Issam Fares.

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De la ferme au plat: diospiros arrumadinhos no Souk, e em baixo street food libanais.

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Pode ser a liberdade, a vibração, o improviso, o ritmo, a sensação de que há uma parte oculta, que lateja, sem nunca ser ameaçadora. Pode ser a comida que nos põe constantemente a falar com deus (obrigada Ch.), a hospitalidade avassaladora dos libaneses, a confluência entre a harmonia e o caos, o beijo do Mediterrâneo, o mundo árabe a entrar-nos pelas narinas, a criatividade sem rédeas, a beleza esburacada, a beleza revelada, os terraços, as escadinhas, as varandas com cortinas, até a chinfrineira omnipresente das buzinas dos taxistas.

Em Beirute, não há praticamente memória. Nas escolas, os manuais de história terminam no capítulo sobre a colonização francesa. Isso choca, e a seguir desculpa-se. Beirute, meu azimute, meu passado em construção.

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Mais brutalismo bello bello, a caminho de Hamra, o bairro árabe.

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Picasso no Sursock, duas instituições. 

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Se há um sítio onde a comida é cultura é o Líbano. O Tawlet (“mesas”, em árabe) em Mar Mikhael, é o Líbano em vários pratos. Todos os dias cozinheiras vindas das aldeias vizinhas fazem a comida que se come em casa. A ideia é de Kamal Mouzawak, o mentor do Souk el Tayeb, mercado de produtores locais. 

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Em Beirute as ruas não têm nome, e os prédios não têm números. Isso tornou um bocadinho difícil encontrar o Kalei, mas valeu a pena. Uma micro-roastery comme il faut.

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Ia jurar que foram os fenícios a descobrir o vidro e pelos vistos a tradição continua, reciclada.

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Pistaccio, pinhões, tâmaras e quilos de açúcar. 

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Na Villa Kettaneh, em Clemenceau, há uma parede contra mirones.

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