O Jogo das Cadeiras (sisterhood)

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Num dia de Outubro vou à capital fazer uma entrevista. As entrevistas não são todas iguais, e acontece o entrevistador passar a entrevistado sem saber nem como  nem porquê. São as melhores.

Estou no centro de Lisboa, devidamente atrasada, chego a uma porta, subo umas escadas, não reparo se têm corrimão mas desconfio que não, são as melhores. Lá em cima a porta está aberta, pelas janelas inclinadas entra a luz cinzenta, coada pelas nuvens esparsas do dia que voa lá fora. É um lugar despido e forte. Uma sala vazia, chão de madeira, traves descascadas a suportar um tecto distante quanto baste.

Há três cadeiras no centro da sala. Três mulheres que se preparam para conversar. As cadeiras estão de costas voltadas. As mulheres não. É a primeira vez que nos encontramos, as três, mas parece que vimos de longe. Dispomos as cadeiras em círculo, naturalmente, de frente umas para as outras, com muito espaço no meio. Não há uma fogueira no centro, lógico, mas quem precisa de fogueiras quando tem vulcõezinhos portáteis lá dentro. Gera-se uma comunhão imediata. Porque somos mulheres. Porque somos mães. Porque somos amadas. Porque fomos amadas. Há uma partilha instantânea, e naquele círculo improvisado, sem esforço, sem lei, percebo para que é que se inventou a palavra “sisterhood”.

A entrevistadora faz perguntas. As entrevistadas fazem perguntas. Saem segredos e confissões pequeninas, voluntárias. Risos também. Sem medo. Falamos de art therapy e voltamos a rir.

Aqueles dias de Outubro, que agora parecem distantes, foram revoluções revelações. Como se de repente estivesse ligada por uma data de acontecimentos, pessoas, emoções, significados, fios distantes, todos tão próximos. Uma teia. Alguns escondidos, outros claros como o Sol estridente que vi.

E então regresso ao Líbano, onde tenho amigos queridos que me dizem que está tudo bem. País do caraças, pessoas do caraças que se revoltam com beleza. Porque a beleza é importante, convém não esquecer. A beleza de todas as coisas (e isso explica muita coisa). A beleza que é como o respeitinho, muito bonita.

A minha amiga S. diz-me que pela primeira vez estão todos unidos, e cantam e dançam e celebram e até limpam as ruas no dia seguinte. Manda-me um vídeo da praça em festa e quero saber quem filmou. “Moi” (tudo isto se passa no WhatsApp que foi um dos gatilhos das manifs). Manda-me outro vídeo, o do soldado comovido, deslocado, e não quero saber se é melodrama, os homens também choram e os soldados ainda mais. Retribuo com as flores nos canos das espingardas. Não conhecia. Isto está tudo ligado.

E depois vou ao Japão, onde está a minha irmã, talvez das poucas pessoas capaz de me enxugar as lágrimas sem lencinhos de papel, de me ligar à terra com cabos de fibra óptica, nascente, poente, cá estamos nós.

Nesse dia, o da entrevista, vou buscar umas botas australianas que devem deixar uma pegada pesadíssima para chegar até aqui, mas são mesmo o que estava a precisar, como diz quem sabe. Depois vou almoçar com a minha amiga P., e descubro que enquanto se escreve não há nada que esteja escrito, e que a felicidade não tem um peso, nem uma medida, e talvez seja nessa indefinição, infinita plasticidade, que resida o segredo.

É claro que não descobri nada de extraordinário. Só que o mundo é uma migalha e nós somos sisters in arms.

(Na imagem “Sisters”, da Branca Cuvier, uma das mulheres do jogo das cadeiras)

 

 

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