A Rolha da Garrafa do Rei da Rússia

 

Uma Madalena foi à ópera e um casal muito simpático perguntou: “Então já não escreve sobre design?”.

“Tem dias”, respondeu.

Hoje é um desses dias. Porque antes que o ano acabe é importante lembrar as coisas boas que o marcaram, e o trabalho do colectivo de designers francês Collections Typologie é um óptimo exemplo.

Primeiro, porque é um colectivo, e isso é importante. Sempre.

Segundo, porque este colectivo se dá ao trabalho de reflectir séria e profundamente sobre objectos que já existem,  em vez de acrescentar, irreflectida e superficialmente, objectos por existir.

Terceiro, porque o projecto, que começou com uma publicação à volta da boule de pétanque criada por quatro malucos extremamente inspirados, passou pelo incrível binómio rolha de cortiça – garrafa de vinho (números 2 e 3) e agora se debruça sobre o banal-belíssimo caixote, se estendeu para lá do papel – print’s not dead, at all-  ganhando corpo numa das exposições mais interessantes do ano (diz quem sabe e quem viu).

Em Abril, em Milão, numa exposição com co-curadoria Collections Typologie e Anniina Koivu, e mais tarde na loja de Jasper Morrison em Londres.

Agora em versão ampliada, cobrindo os quatro objetos anónimos, a exposição está no Vitra Design Museum Gallery (até Maio) e só pode ser um regalo.

E porque é que é uma exposição sobre esferas e rolhas e garrafas e caixotes é tão importante e interessante?

Porque os objectos humildes, comuns e anónimos têm imenso para nos ensinar. Muito mais do que a sua superfície, engolida pela vertigem do mundo, consegue revelar. Muito mais do que os nossos olhos distraídos e erráticos conseguem distinguir.

Estes objectos. À primeira vista, nada a assinalar. Mas se mergulharmos. Se lhes descobrirmos os segredos. Se formos ao fundo, se perscrutarmos aquilo que sendo constante muda, aquilo que neles antes de ser já era, aí a história fica um bocadinho diferente.

Isto é apenas parte da história. A outra envolve olhar para trás para imaginar o futuro. Sem saudosismos, credo, que tragédia! Mas vale a pena. Sobretudo nestes dias de frenesim consumista (que bem que se está no campo) é reconfortante verificar como menos – mais perto, mais longo, mais lento – é mesmo muito, muito mais. Bom Natal!

(as fotos são da Collections Typologie, Alberto Strada)