De passagem

icon-13

original.jpg

Diz Don Galeano que recordar vem do latim “re-cordis”, voltar a passar pelo coração. O livro, chamado “Dos Abraços” , está cheio de coisas bonitas e significantes, fantasias e realidades, histórias que gostaríamos nos tivessem acontecido ou então que nos tivessem contado, que más da, outras não tanto, de duras e abjectas e inacreditáveis, mas em todas é tão fácil rever-se.

Estou a ler e é como se lesse uma vida minha que não vivi. Estou a ler e a cada página estou colada, as palavras são calquitos, passo o lápis sobre o papel vegetal e fica lá o rasto, o risco, a memória, e do outro lado, nítida, a imagem de uma experiência que não sendo minha, sou eu inteira. Não há como explicar este processo, só que entre estes abraços repousa a mente, e atrás o corpo, e isso é bom.

Don Galeano leva um nome que eu um dia amei, mas não é por isso que me sinto tão bem na sua companhia. É um entendimento bem contente.

Volto à recordação. Imagino um coração trespassado por um fio. Uma agulha firme e tenra. Esse fio é o que vivemos, amámos, perdemos. Podemos puxar pelo fio, entesando-o com apego, mas é melhor deixá-lo correr, sentindo apenas o sopro da sua vibração ao atravessar as paredes. Idealmente, aquilo que regressa ao coração está só de passagem. Como o convidado que entra numa sala por uma porta, toma um chá silencioso, e volta a sair. Passar não é ficar. Por isso imagino o fio perfurando o músculo pulsante. Sem remate, entrando por um lado, saindo por outro. Sinto-o na carne – afinal o coração é alimentado a proteína – mas não deixo que me morda.

Resisto-lhe, entregando-me.

Hoje de manhã a chuva acordou-me. Como chovia a cântaros, fui levar os meus filhos à escola, para lhes poupar a molha (cá em casa não acreditamos em guarda-chuvas). Então o fio adormecido que dormia enroscado lá na sua toca desenrolou-se e veio direito ao meu coração. Puxei pelo fio e atrás veio a rua das Trinas, o rio ao fundo, provavelmente verde acinzentado nesse dia, a mão do meu filho na minha, a rua como uma montanha luminosa, dobrando a rua das Praças, o portão da escola, o beijo apertado, a pastelaria esguia, resumida a um balcão, um pão de deus bem quente, as pedras da calçada, o sorriso nepalês, o mosaico hidráulico polido, a estante pejada de livros, o espelho redondo cheio de furinhos, a árvore da vida nas costas, a janela aberta sobre o jardim, as paredes pretas da casa de banho, um som vindo dali, daqui, uma cama côncava, convexa, côncava, a felicidade fugidia. Um fio como um rio. Ainda o estou a puxar.

(ilustração gamada à Duvet Days)

Respond to De passagem

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s