Desassossego (le paradis c’est les autres)

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Há quase dois verões mudei-me para o campo. Teoricamente vivo numa cidade, mas na prática isto é a pasmaceira absoluta. O mais luminoso sossego.

Ainda bem.

Foi para isso que vim.

Lembro-me de como me incomodava o silêncio nesse meu primeiro Verão alentejano. O silêncio era uma coisa louca, de perfurar os tímpanos, e fazer tremer os alicerces desta construção em construção que sou eu. O silêncio que não me deixava dormir. O silêncio que tomava conta de tudo, do espaço e tudo o que contém, interior, exterior, por dentro e do avesso.

Hoje já não o ouço.

A mulher é um animal de hábitos e habitua-se a tudo, menos ao desamor.

Em Lisboa, a janela do meu quarto não tinha portadas. A luz da rua passava a vida a interromper-me os sonhos. Aqui durmo num quarto gigante atrás de pesadas portadas, janelas abertas.

Debaixo dessas janelas passam carros. Varrem o silêncio, rolando sobre as pedras grossas, e lá vão eles. Durante a semana, seis ou sete, sobretudo entre as oito e as nove da manhã. Aos sábados ainda menos.

Agora menos ainda.

De Lisboa, chegam-me as notícias das ruas desertas, do silêncio pesado, da imobilidade de tudo. As pessoas estranham, e eu percebo. As pessoas não gostam de estar isoladas, e eu percebo.

Como todos, pus-me a ligar a pessoas que me são queridas e a quem já não ligava há muito tempo. Pessoas que estão sozinhas, ou que estão mais assustadas porque fazem parte dos chamados “grupos de risco”. Pessoas de quem já sentia saudades e agora ainda mais.

E pensei muito naqueles que mais amo e por quem mais temo.

E o meu telefone encheu-se de mensagens e grupos e alertas que desalertei. E aos poucos a minha vida tranquila virou um frenesim.

Instalou-se o desassossego.

O mundo faz uma travagem brusca. Lockdown. Slow down.

E eu, com esta tendência para ser do contra, eu acelero.

Porque tenho de fazer o almoço, para além do jantar. Porque estamos em guerra, e há que ir buscar mantimentos. Porque trabalho em casa há muitos anos e tenho coisas para fazer. Porque deixei de ter ajuda, mas continua a ser preciso limpar a casa. Porque os meus filhos não têm aulas, mas têm trabalhos. Porque há uma ansiedade geral, e é preciso sossegar.

Então,

Antes da pandemia, eu tinha escolhido distanciar-me, abrandar. Deixar para trás coisas que já não me serviam, abraçar outras, inteiramente novas para mim apesar de já cá estarem há muito tempo, muito mais tempo que nós.

Nesta reclusão voluntária, desacelerei sem esforço, percebi que quando não há distrações é muito mais fácil morder o momento, enraizar, estar inteira e estar presente. Muitas coisas que já tinham sentido ficaram ainda mais claras. A importância do ócio. A beleza da frugalidade. A evidência da natureza. O prazer dos outros.

Não sou melhor, não descobri a pólvora, não tenho mais coragem. Como diz o meu primo “coragem é viver na cidade”. Isto é um caminho e um processo.

Este bicho gorduroso e manhoso

que veio sacudir o mundo, imobilizando-o

que veio lembrar-nos que afinal o outro estava errado

e

le paradis c’est les autres

devíamos dizer-lhe, se tivesse cérebro, que não precisamos dele para nada. Mesmo nada. Que abrimos a pestana sozinhos para ver o céu, obrigada. Que antes de ele chegar já parávamos o carro no meio da noite para olhar o firmamento. Que já sabíamos como as lágrimas sabem a sal e as peles ardem de amor. Que podemos estar colectivamente entretidos, mas não necessariamente embrutecidos. Que não há abraços virtuais, por muito que nos queiram convencer do contrário. Para não falar do resto. Que precisamos de muito, muito menos para ser felizes do que nos fazem crer. Que o planeta agradece.  Que não é preciso trabalhar tantas horas. Que há mergulhos gloriosos. Que a música cura. Que estudar em casa é bom. Que saber estar sozinho é uma virtude. Que os outros têm todas as cores. Que o silêncio é de ouro. Que a liberdade é linda. Que cada dia é para se viver inteiro. Que estamos agradecidos.

P.S: queridos todos que não sabem o que fazer nestes dias de quarentena: GO WITHIN.  Se não podemos ir lá para fora, resta-nos o mundo interior, que, dizem os sábios, tem tudo o que precisamos. Podemos sempre nutri-lo com boas leituras, música revigorante, filmes belíssimos. Podemos também fechar os olhos e ver os pensamentos correr, sem lhes dar conversa. Como quem vê a banda passar. #staysafe

 

 

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