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Aquela praia era o paraíso. Mas tinha um problema: o Sol punha-se demasiado cedo. A água também era um problema. Demasiado fria. Sol apressado, água gelada, não é a melhor combinação, não fosse aquela praia o paraíso, e ao paraíso desculpa-se tudo.
Aninhada na serra, a pequena baía abria-se para o mar claro, quase infinito. Seixos perfeitos, calhaus arredondados, a memória dura e doce das plantas dos pés. Para lá corriam, serpenteando serra abaixo para um glorioso último mergulho antes do Sol se pôr. O Sol a pisgar-se, cada minuto a faixa de luz deslocando-se mais para Oeste, e as duas mulheres, ninfas ninfetas, perseguindo mar adentro o astro-rei. Que frio, que frio, que fri-o. Saltitando as ninfetas entre gritinhos excitados. Quando se grita é impossível morrer. Incompatibilidade anafilática.
Finalmente, a primeira mergulha. Depois a outra. Splash. Splash. E outro grito, explosivo, de felicidade à superfície.
Elas mergulham e imaginam as sereias de touca dos filmes de Esther Williams.
(Disse à minha avó que dei um mergulho no paraíso e ela, naquela salinha naquele sofá, disse-me que me amava ainda mais, disse-me que tinha saudades de nadar.)
(a ilustração é do gamadíssima ao grande, gigante Jean Jullien, que não sei se já esteve no Paraíso, mas eu diria que sim)
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