A caça

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Um dia como os outros, levanto-me, tomo banho, atravesso a casa, entro na sala e pergunto às crias se já tomaram o pequeno-almoço. Já estão com as cabeças mergulhadas nos telemóveis, meus queridos avestruzes, e respondem sim, sim.

Faço um café, não como mais nada porque já não é propriamente cedo e é preciso sair.

Hoje vou à caça.

Sinto-me uma mulher das cavernas. Não tenho lança, tenho um cartão com banda magnética enfiado no bolso de trás das calças.

É tudo o que levo. Isso e um saco para trazer os troféus. Não são bem troféus. São bens de primeira necessidade, se concordarmos que a carne é um bem de primeira necessidade, que na realidade acho que não é.

Mas as crias estão fartas de verduras e legumes e cocktails de curcuma. Apetece-lhes afundar os caninos num naco de carne e eu percebo-as.

E então lá vou eu. Sem lança. Com luvas de látex como pirilampos.

Hoje estou com sorte. Há muita caça no campo. O Sol já vai alto, mas as arcas frigoríficas continuam cheias. No outro dia, consegui quatro fatias de picanha da América do Sul, caríssima e com uma pegada imprópria, e foi tudo. Foi nesse dia que vi um homem açambarcar 17 cachos de bananas enquanto eu revolvia os caixotes desertos.

Perguntei ao S. se já tinha visto o Planeta dos Macacos. Grande filme.

(ilustração Magdalena Feikusová)

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