Verão

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Está um calor de cigarras e a rede brasileira, amarela como o Sol mais limpo, é o berço onde embalo a minha juventude.

Percorri as estantes todas, que apesar de serem novas estão cheias de livros velhos, e outros não tanto, todos arrumados segundo uma ordem misteriosa que desconheço, que não sou capaz de decifrar, mas que me enternece e reconforta, porque é bela.

Os livros não estão ordenados por autor, nem por género, nem por editora, muito menos por língua. Alguns estão agrupados porque pertencem à mesma colecção, é verdade. São família. Outros porque foram comprados no mesmo dia, e ficaram assim, numa pilha provisória que acabou por se tornar permanente, apesar das idas e vindas, dos seus particulares movimentos internos. A maioria está disposta por afinidade. Os livros também têm inclinações, e não é só porque tombam, sucumbindo à lei da gravidade (ou da inércia).  Encostados um aos outros, repousando felizes uns sobre os outros, desconfio que os livros procuram outros livros que lhes são semelhantes, se não em conteúdo, pelo menos em espírito. Devíamos fazer o mesmo.

Percorri as estantes todas e já não me lembro que livro escolhi. Vamos dizer “Le Marin de Gibraltar”, por conveniência. Li-o num barco, pareceu-me adequado para uma curta travessia no Mediterrâneo, mas vamos dizer que também o li neste alpendre algarvio da minha juventude.

A casa está cheia e silenciosa, os meus irmãos dormem a sesta. Pousei um copo de chá gelado no chão e estendi-me na rede que se transformou numa barriga. A minha mãe não sabe como é feliz, e olha calmamente para o mar ao fundo. Eu não sei como vou ser feliz, e naquele momento também não penso nisso. Estou só ali. Entre as sardinheiras e as cigarras, com um livro no colo e a vida inteira por inventar.

Não há nada para além de mim que de mim dependa. Não há nenhum outro lugar onde eu queira ou deva estar. Não há nada à minha espera. Não tenho crias. Não tenho dores. Não sinto falta. Não tenho pena. Não há passado porque não houve tempo. Não há projectos porque cada instante basta. Estou toda ali.

Suspensa, na rede que balança.

Não tenho medo. Não tenho fé. Sou eu inteira.

(ilustração gentilmente cedida pela bohemia cortijera, super talentosa Fátima Moreno)

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