Nuvem

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Todos os dias, o Senhor Flo subia as escadas do prédio onde vivia, vários lanços em passadas alegres e confiantes, leves como assobios, e chegando ao topo, com a respiração amplamente controlada, retirava do bolso o seu cachimbo.

Ensaiava um ujjayi profundo e lento, e o som do oceano vibrava no fundo da sua garganta. Fechava os olhos e levava o cachimbo às narinas, inalando intensamente o aroma áspero e redondo. Depois, muito satisfeito, aproximava-se do precipício murado – lá em baixo, os carros miniatura deslizavam em pistas ortogonais – e pousava o cachimbo na última fila de tijolo, antes do prédio acabar. Ficava a olhar, a olhar, e abanava a cabeça sem nunca perder o contentamento.

Do olho de pássaro, a metrópole caótica parecia ajuizada.

Era então que procurava no bolso a caixinha do tabaco, uma beleza de alumínio onde as folhas se aconchegavam, com a humidade certa, protegidas por uma folha de papel vegetal. Limpava o cachimbo dos restos dos bafos anteriores e voltava a enchê-lo, calcando o tabaco amorosamente.

Depois acendia o instrumento, puf puf puf, ritmo acelerado ao início, para pegar, e depois mais espaçado, escorregando lentamente para dentro daquela languidez azulada.

Por cima da sua cabeça, flutuavam nuvens cheias de doçura. Estava um lindo dia e a saudação ao Sol ficaria para depois.

(obrigada ao gentilíssimo Pierre Pratt,  que me emprestou esta beleza para eu escrever)

 

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