Tremor

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Conheci um homem que amava montanhas. Escalava-as, enfrentando perigos e acasos, e quando atingia o cume, sentava-se numa pedra mais amena e contemplava a vastidão, como se para além do espaço, tivesse todo o tempo a seus pés. Depois, pensava em regressar a casa, mesmo que no seu espírito esse espaço não tivesse contornos bem definidos ou lugar onde pousar.

Era um homem vigoroso e atlético, mas isso não impedia que dele emanasse uma calmaria tão profunda como um mar solene. Ele sabia muitas coisas, porque tinha viajado muito e observado mais, quase sempre em silêncio, muitas vezes de pé. Isso chegava a ser enervante para quem, como eu, o olhava tantas vezes com assombro, tentando compreender.

De todas as coisas que ele sabia, a que melhor sabia era que no mundo tudo muda, e muda constantemente.

Talvez por isso gostasse tanto de montanhas, da sua permanência desarmante. Desconfiava de agitações e burburinhos, de inconstâncias e arrebatos. Sempre que sentia algum tremor ou ameaça borbulhar perto de si, retirava-se. Temia as erupções próprias dos corações vulcânicos, desconfiava dos vapores caindo sobre o musgo macio.

Mal ele sabia que as montanhas são vulcões adormecidos.

(a montanha sorridente é do Júlio Dolbeth)

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