Arábias

icon-15

sopa touaregue.jpg

Revi um filme de Jean Rouch que mete girafas e carros, e voltei a Nova Iorque, para onde esta clausura me tem levado algumas vezes sem eu pedir. É espantosa a capacidade que temos de desaparecer, escorregando para outros lugares e outros tempos, de olhos bem abertos, sem sair do sofá. Noutra altura diria: quero viver aqui e agora. Acontece que o confinamento tem uma elasticidade surpreendente e neste aqui, agora mesmo, cabem uma data de coisas felizes memoráveis irrepetíveis esplendorosas e banalíssimas até.

Por exemplo, uma sopa de bróculos que ia buscar a uma mini deli de Waverly Place. A sopa era deliciosa, e o intervalo entre as aulas – na altura estudava cinema –  era o tempo que levava para descer oito andares de elevador, apertar o sobretudo, sair para a rua, quase congelar, pôr-me em andamento, virar a esquina, levar com o vento furioso, andar uns metros, entrar na loja, pedir ao senhor árabe atrás do balcão o clássico “levantamuertos”, quente como o raio, saboroso como o raio, divinal broccoli soup, pagar e voltar. Comia a sopa nas aulas, a ver um filme. Não eram permitidas pipocas.

Na deli, o homem estendia-me a sopa e uns grizzini empacotados, derretendo-se todo num sorriso mais que amável e perguntava-me, de cada vez, como se fosse uma promessa, de que zona das Arábias vinha eu. E eu respondia, tristíssima, de nenhuma, venho de Portugal. Ele não queria acreditar. Nunca queria acreditar. Chamava o irmão, numa perplexidade. Pedia-lhe, belisca-me que não pode ser. Ao todo, deve ter dito aí uns 20 países diferentes, todos no Médio Oriente. Lugares mistério de onde eu podia vir. Ou o meu pai. Ou a minha mãe. Um disparate de latitudes e longitudes desconexas porque, como é óbvio, os fenícios não são persas não são turcos não são otomanos não são sírios não são palestinianos e eu não sou de nenhum desses lugares nem podia ser de todos ao mesmo tempo. Sou de Lisboa. A minha mãe nasceu na Praia. Praia cidade, não praia beach. E ele boquiaberto a insistir. E eu a desculpar-me, mais por simpatia que por convicção, por ter nascido nas coordenadas erradas.

Num salto repentino, abro as asas e voo para Marraquexe, onde às portas da Medina um marroquino me pergunta “Maman Berbere? Papa Berbere?”. E eu que sempre gostei de Touaregs com os seus turbantes azuis penteando as areias do deserto.

(lá em cima, a touareg que a Eva Evita fez para esta história)

One response to Arábias

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s