Abraço

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Na praia, não havia nada que gostasse mais de fazer do que procurar conchinhas. Primeiro conchinhas, depois pedras de vários feitios cores densidades porosidades. Era uma ocupação.

De mão dada, à beira-mar, o avô ordenava às ondas que deixassem de rugir e sossegassem. Elas obedeciam sempre, lindas meninas. Ela podia apanhar mais conchas à vontade.

Mais tarde, recebeu uma pedra em forma de coração. Era bonita e pesada como se espera que sejam as pedras de quem não se espera mais nada. Também podia ser um triângulo. Também podia ser uma vela. Também podia ser uma espátula que espalhasse a tinta na parede de uma casa baixinha ou cortasse um bolo de anos macio.

Mais tarde, ela tornou-se astronauta. Ele tinha uma constelação nas costas, pequeninos sinais cintilantes como astros, que ela percorria com as pontas dos dedos. Era uma delícia percorrer assim na Terra caminhos celestes que nunca ninguém pisara, dedos como pássaros fazendo tangentes num lago tranquilo, as nuvens reflectidas, recortadas na superfície espelhada. Dedos foguetão, perdidos e felizes a anos-luz de lado nenhum. Cada dia, um caminho novo, figuras geométricas inéditas, trajetos puros, rotas dançantes.

Quando a abraçava fechava os olhos intensamente. Tinha-o apanhado uma vez no espelho e tinha a certeza que o fazia sempre e de cada vez.

Na praia, não havia nada que gostasse mais de fazer do que encostar o ouvido à areia e ouvir os passos aproximando-se. Dentro da areia, pareciam estilhaços de vidro, brilhantes e abafados. Também enrolar-se num pano estendido ao Sol, depois de um banho realmente frio. Também aninhar-se ali até que as gotas todas se fundissem no mesmo mar.

(para a história número #vinteeum, a última destas que decidi escrever, a única fotografia desta série, tirada pela Katrin Koenning. Para mim, as fotografias da Katrin são sempre um deslumbramento, e por isso agradeço ainda mais que ela tenha cedido esta tão gentilmente. É característico das pessoas grandes serem muito generosas, é a conclusão a que chego depois desta experiência. E vice-versa também. A fotografia, que vem quebrar o ciclo de 20 ilustrações, pareceu-me apropriada para estes estranhos dias que vivemos, uns mais que outros, convém não esquecer, porque até esta loucura não atinge todos da mesma maneira. Para todos, AQUELE ABRAÇO!)

 

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