Aspas

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Há pessoas que gostam muito de colocar as coisas entre aspas. Assim: “entre aspas”.

Que bonito.

A mim enervam-me. São uma suspensão escusada. Denotam uma falta de convicção, naquilo que se diz e se escreve, que faz dó.

As aspas e as reticências, quando mal utilizadas, dão-me cabo dos nervos.

A verdade é que abundam por aí os exemplos de aspas que são mal empregues, que não é o mesmo, digo eu, que dizer que são mal-empregadas (aqui poderia ter usado aspas, mas prescindo).

É um abuso generalizado. Uma catadupa de aspas sem qualquer justificação.

Por exemplo, num website leio: “nós preocupamo-nos verdadeiramente com a ´sustentabilidade’ porque acreditamos num futuro mais ‘consciente’”. (aspas dentro de aspas viram monoaspa)

Mas afinal, são sustentáveis ou não? E o futuro, pode ser mais consciente agora, ou fica para depois?

Assim lido, parece que falta assertividade à “sustentabilidade”. Note-se: coloquei aspas em “sustentabilidade”, porque estava a citar, mas não em “assertividade” porque era uma palavra minha. Fui eu que a escolhi. Não precisa de aspas.

No limite, o uso abusivo das aspas suspende o pensamento livre e independente.

As aspas revelam a forma manhosa que o politicamente correcto tem de se infiltrar na linguagem. Ninguém se atravessa. Ninguém dá o peito às balas.  Tudo é moderado e morno e frouxo. Anda tudo escondido atrás das aspas, como se fossem umas pinças a prender um véu que tapa a verdade. O véu pintado.

Não quero dar lições a ninguém. Não sou daquelas que nunca se engana e que raramente tem dúvidas. Eu engano-me frequentemente, e felizmente tenho dúvidas. Várias. Alimentam-me a alma. Fazem-me tirar os pés do chão para dar o salto e voar.

Mas tantas aspas, para quê? Na minha mente, as aspas servem para fazer citações (de palavras isoladas ou frases inteiras. Os ingleses gostam de avisar: “and I quote”); ou para deixar claro que o texto que se segue é o título de uma obra (No livro “D. Quixote de La Mancha”, no filme “Janela Indiscreta”, no álbum “Nevermind”); ou para indicar o desvio ou imprecisão de uma palavra em relação aquilo que pretende exprimir. E é aqui que as aspas se tornam escorregadias. Se a palavra é inadequada, então procure-se outra que a substitua. Faça-se um esforço. Puxe-se pela cabeça. Sacuda-se a imprecisão. Perca-se o medo.

Só o Dicionário Houaiss de língua portuguesa, por exemplo, contém 400 mil palavras, segundo algumas fontes. Outras fontes apontam para cerca de 200 mil. De uma maneira ou de outra, é bué (esta também lá está, e não precisa de aspas). Temos muito por onde escolher. Chamamos os bois pelos nomes?

(a primeira letra do alfabeto é da Catarina Carreiras, guerreira no dézaine como na vida e fundadora do This Must Be the Place. Desenhou-a para uma série de posts da Editorialista, dedicados a letras e palavras, que vão saindo no Instagram)

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