Escultura em movimento (pó de vir a ser)

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Primeiro, o nome. Pó de vir a ser. Pode. Podia. Podia lá haver nome mais bonito para uma associação que nasceu para “fazer da escultura uma coisa para todos”?

(Lembro-me de ouvir o nome, recém-chegada ao Alentejo, e dizer, bolas, que nome mais bem pensado, mais um bocadinho e contrato-os para copy.)

Demorei muito tempo a vir conhecer este lugar. Não tempo de mais, só muito. Bom, algum. Passaram dois anos e depois de passar várias vezes à porta do antigo Matadouro de Évora, finalmente entrei. Fica no número 58 da Rua de Machede. Vale a pena.

(Évora tem as ruas mais lindas e uma toponímia a condizer. Invulgar. Ruas e praças e travessas e becos com nomes belíssimos, que até dispensariam uma visita ao lugar, de tão evocativos que são. Só de os dizer, já estamos a vê-los, o filme desfilando inteiro nas nossas cabeças. Machede, fui ver, vem do árabe Mashed, que significa reservatório natural de água.)

O Matadouro foi construído na segunda metade do século XIX e esteve em funcionamento muitos anos. Os portões que dão para a rua costumavam estar abertos, e por isso era possível chegar e espreitar e ver. Os animais entravam pelas traseiras, ficavam por ali debaixo de um plátano generoso, eram encaminhados para os curros. O gado bovino de um lado, os porcos do outro. Enfim, o fim.

Agora, está cheio de pedras. De muitos tamanhos e formas. Suspensas, espalhadas, leves, pesadas. De pó e de poesia, naquele sentido grego e original de criar ou fazer, que aqui cai como mel na sopa porque a escultura também é isso. Esculpir é revelar, é trazer à luz o que não estava, ou já estava, mas ainda não se via.

 

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Tudo isto são coisas em que me ponho a pensar depois de passar umas horas no meio do pó, que não é sujo, é só branco, e fino, e cobre tudo, e descobre mais, num atelier a céu aberto. Ou não, porque também há oficinas fechadas, para talhar a pedra em diferentes escalas. Aqui, as pessoas vêm aprender do nada ou, se já tiverem alguma autonomia, desenvolver a sua prática artística porque, como já percebemos, se tudo pó de vir a ser, pode vir a ser qualquer coisa.

É essa enorme liberdade que se respira neste lugar, a liberdade de todas as possibilidades, que, para aqueles que podem escolher, é das melhores coisas que se pode ter na vida. Todas as possibilidades, se calhar contra todas as probabilidades. Em frente, sempre, e que beleza!

Embora a pó de vir a ser esteja focada na escultura (a sua génese, nos anos 80, está ligada ao Centro Cultural de Évora, como Departamento de Escultura em Pedra) o seu impulso é sempre expansivo e inclusivo, no sentido de alargar o entendimento do que é a escultura, de trabalhar e transformar a relação da escultura com a cidade e a comunidade (com um lugar muito concreto que é esta cidade), e de cruzar a escultura com outras disciplinas e práticas artísticas.

Foi assim que surgiram as Oficinas do Possível, um projecto com os artistas Renata Bueno, Rui Horta Pereira e a equipa da pó de vir a ser, que, a partir do aproveitamento dos resíduos (pó e pedra, é só isso) que resultam da produção de esculturas e da extração desta matéria (aqui bem perto), nos desafia a sermos “escultores da nossa própria realidade”, o que é sempre um bom princípio. O outro bom princípio, mais sustentável, é o da circularidade, atravessa toda a prática da associação, e pode dizer-se que está na sua massa. O pó é a sobra, mas também a essência. É o fim, mas também um novo começo.

Com oficinas criativas, residências artísticas, encontros, exposições e uma programação que inclui coisas tão maravilhosas como cinema ao ar livre (Suspiro. Falo do ciclo “As Imagens Contra o Muro”, infelizmente suspenso em tempos de pandemia) a pó de vir a ser nasceu com o objetivo de aproximar o escultor da matéria, dar-lhe as ferramentas que precisa para a trabalhar (e refiro-me a ferramentas industriais, máquinas de corte, rebarbadoras, gruas, muito longe da imagem romantizada do escultor de martelo e cinzel)  e, nesse movimento, libertar a escultura de alguns atilhos e preconceitos. 40 anos depois, quando ainda há tanto por fazer pela descentralização da cultura, tanto lugar para transformar, tanto território para ligar e manifestar, é bom poder lembrar, de olhos abertos e desempoeirados, que a escultura (também) é movimento.

(as fotografias são iphone only porque a máquina falhou de vez. O lugar é lindo. Impossível não adorar os azulejos brancos de todas as cores. Petrifiquei. E as redes pachorrentas. As cadeiras altas. Os fragmentos. Pequeninos cilindros. Transparências. E as máquinas. E os telhados e o céu inteiro atrás).

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One response to Escultura em movimento (pó de vir a ser)

  1. Carlos Dutra

    PÓ porta aberta de POESIA
    A consoante fechada P
    abre se a fim da nuvem presa entre os lábios se expandir em todos

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