Clarice

Comecei Clarice pelo fim. “A Hora da Estrela”, o último livro que Clarice escreveu, foi o primeiro que li. Também vi. Na adaptação para cinema de Suzana Amaral (1986) que ganhou o urso em Berlim e passou na aula de Film and Literature, módulo I, Professor Robert Stam.

Lembro-me do livro, que se perdeu numa viagem transatlântica. Era fininho, era azul, tinha uma ilustração Picassiana na capa, e dizia, claro, “The Hour of the Star” porque era uma edição americana. Fui ver: afinal é um desenho de Paul Klee.

O livro perdeu-se, metido num grande navio, enfiado, com outros irmãos livros, num velho saco de pano militar que era a maneira mais barata de transportar livros – ou qualquer coisa volumosa e sobretudo pesada – dos Estados Unidos para a Europa. Nunca chegou a minha casa (na altura, na parte mais meridional do reino de Al Andalus). Nunca mais o vi.

O livro perdeu-se, ficou Clarice.

A partir daí, fiz a viagem toda para trás. Fui ler tudo o que podia. Descobri que lá em casa havia muitas Clarices, e eu que nunca tinha reparado nelas. Quando falei ao meu padrasto de Clarice, de como era maravilhosa e extraordinária e génia, ele disse AHHHH ou OHHHH, que é logicamente a única coisa acertada que se pode dizer sobre Clarice.

Os olhos dele riram-se. Ficaram ainda mais cheios de luz. Olhamos um para o outro e não dissemos mais nada.

Claro. Clarice.

Anos mais tarde, li muitas vezes aos meus filhos “A Mulher que Matou os Peixes”, uma história que Clarice escreveu para os filhos dela. Eles gostavam da história, mas gostavam sobretudo dos domingos em que podiam vir para a minha cama e adormecer aninhados na voz de Clarice. Depois percebi que se era para ouvir Clarice podiam ouvir Clarice toda. Perto do Coração Selvagem. A paixão. O Lustre. Os laços. Mergulhados naquelas profundezas, descobríamos a claridade. Algas e limos e luz. Peixinhos e galinhas e baratas. As palavras todas, viradas do avesso, vastas e velozes. 

Clarice Lispector nasceu a 10 de Dezembro de 1920. Neste site maravilhoso cheio de Clarice, descobri que é a escritora mais citada no Twitter (!), e que consultava o I Ching (!), o que é espantoso para uma mulher-oráculo.

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