João Cutileiro

João tinha aquele brilhozinho nos olhos. Era permanente, como uma escultura. Tudo o resto nele se movia. Brilhava. Ele falou-me de Kabul e ensinou-me que não se dizia “tenho uma amiga minha” porque se temos uma amiga, ela já é nossa. Ou de quem a apanhar.

João amava as mulheres. João era maternal. Tratava os reis por tu. João tinha aquele riso escancarado, ombros içando-se, para cima, para baixo, no solavanco da gargalhada muda e longa, e os olhos profundos, como lagos escuros, mas sobretudo irrequietos e vivos, percorrendo com leveza a superfície das coisas e furando fundo. Ele lembrava-me um pássaro antes do voo. Muito lúcido, muito atento, fixando-se em todos os invisíveis pormenores, e de repente solto, de asas bem abertas. Ou um leão lambendo amorosamente as suas crias.

Este pássaro falava inglês, evidente. Fazia puns. Tirava belíssimas fotografias. Estava coberto de pó, cuspia histórias lindas como labaredas.

João tinha as sobrancelhas brancas, mesmo quando o cabelo ainda era preto (imagino), uma viseira, aquela geringonça nos ouvidos. Mãos dançantes, acariciando a própria cabeça. Uma timidez toda voltada para os outros.

João era um cometa. Tivemos muita sorte em tê-lo nas nossas vidas. O mundo hoje está triste. Esvaziado. Felizmente, no negativo, a alegria. 

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