K

Kahlo, não calo

Sendo óbvia a

Frida, ferida.

Com a perna ao alto,

Procuro-a

Por detrás das sobrancelhas

No forro do espartilho

Dentro daquele olhar selvagem

Aquela beleza toda

Percorro a minha estante

Os dedos trémulos

Em desequilíbrio

Fazendo pontas na canadiana

Procuro aquele livro onde ela se descoseu

Cheia de desenhos

Cores

Palavras

Desabrigada e poderosa

Revelando o seu amor

 a sua ferida,

Lambendo-a

Aquele Diego sempre me pareceu um monstrozinho

Odioso, exoftálmico

Teria uma tiroide excitada 

Ou apenas um ego desmesurado

Que lhe saía pelos olhos?

Felizmente outros,

Que agora não lembro

Os de Trotsky

Brilhantes atrás das lentes que eram aros

Como tartarugas

De uma transparência alada

Lhe deram a volta,

Frida

A puseram a dançar 

Saias 

Folhos

Flores

Jarras derramadas

Encarnadas

Eu não sinto a dor de Frida

Não chego lá

Não tenho um ferro atravessado na carne

Não moro na cama

Não sinto o amor sacudir-me

Cuspindo-o do corpo 

Depois do naufrágio

Soluçando algas

Embrenhadas em tranças

Para depois recuperar

O fôlego.

(as histórias do nosso confinamento voltaram. Todos os dias, nos próximos dias, por aqui ou no Instagram da editorialista. Uma história por dia não sabe o bem que lhe fazia.)

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