M

(Miudezas)

No ano de 1968 os carros eram rápidos, as relvas aparadas, e as mulheres queimavam soutiens em Atlantic City. No ano da pandemia, os soutiens tornaram-se obsoletos.

As mulheres começaram por deixá-los pendurados nas costas das cadeiras. Pouco a pouco, passaram a olhá-los de lado, mesmo os mais bonitos, de rendas, de seda, de complicadas filigranas. Com o tempo, os soutiens diluíram-se na paisagem, esquecidos. Cobriram-se de pó, os fechos enferrujaram e deixaram de importunar omoplatas desprevenidas, de esmagar sinais impertinentes, de apertar ombros luzidios. Os fechos, sobretudo, ressentiram-se. Claro que perderam a graça, mais ninguém tacteou, procurando-os no escuro, na plenitude da cegueira, mesmo às claras.

Um dia, as mulheres fartaram-se. Incomodadas com aquela solitária presença, como se a peça de roupa lhes devolvesse o olhar – dois triângulozinhos de pano fitando-as, acusadores – enfiaram os soutiens abandonados no fundo das gavetas e fecharam-nas para sempre, sem olhar para trás. As unhas pintadas ainda bateram no puxador, hesitantes. Fica. Não mexe. Esquece. Adeus, miudeza, finge que eu nunca existi. No ano da pandemia os carros recolheram-se, as plantas cresceram indomadas, e no seu peito as mulheres cantaram liberdade.

(A fotografia é da australiana fenomenal Lisa Sorgini que durante a quarentena fotografou mães e filhos em confinamento na série mais linda, “behind glass”)

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