G

(GALOCHAS)

Naquela escola havia uma praia compartimentada. O recreio não tinha cimento, não tinha gravilha, não tinha borracha no chão. Tinha areia. A areia era mais cinzenta que outra coisa, e estava contida em pequenos planaltos, protegidos por muretes baixinhos. Não era um areal a perder de vista, brilhando infinito debaixo do sol. Mas era bom. 

Tanta areia era a alegria das crianças e o pesadelo dos pais. 

Todos os dias chegávamos a casa, sujos, felizes e esfolados, com os dedos peganhentos de marmelada e bigodes de leite, e antes do banho procedíamos ao despejo dos sapatos, que vinham cheios de grãozinhos e soltavam poeira, porque na praia anda-se descalço, mas na escola, mesmo naquela, ainda não.

Era um momento de grande beleza. A roupa atirada para o chão da casa de banho, um monte malcheiroso, e os sapatos vertendo areia para dentro de retrete. Fina, interminável, derramando nuns segundos todas as proezas do dia, as conquistas, as injustiças, as brincadeiras, os segredinhos, as pazes, as descobertas. Naquele momento, via as horas passadas desfilar debaixo dos olhos, em retrospectiva, num flashback curtíssimo e intenso. O dia ali derramado podia ser uma tristeza, uma alegria, uma vingança e uma redenção. Podia ser tudo isso ao mesmo tempo, e isso era ter sete anos e ser feliz.

Nos dias de chuva, voltávamos para casa com as meias empapadas dentro das galochas, que apesar de serem de borracha deixavam passar o frio e a humidade. Porque as botas tinham o cano alto, e não brincávamos tanto tempo lá fora, havia menos areia para despejar. Mas havia sempre alguma. A minha mãe mandava-me esticar os braços para cima, despia-me a camisola e perguntava-me como raio tinha feito para conseguir trazer a praia inteira para casa e nem ao menos me lembrar de roubar um bocadinho de mar. 

(este azulejo lindo é da minha querida Margarida Alfacinha, que também deve ter esvaziado muitos sapatos, ténis e galochas vindos do recreio da Torre, onde nos conhecemos há muitos, muitos anos, escrevíamos no jornal de parede e passávamos um rolo embebido em tinta nas letras em espelho, na altura em que as crianças não usavam cintos de segurança, nas festas de anos se bebia Tang, o salame de chocolate não se comprava no supermercado e o mundo era aberto e não tinha medo)

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