L

(LORDE)

Sentado ao colo do sofá de orelhas, o cão enrosca-se como uma minhoca. Depois levanta a cabeça e olha para mim, tranquilo como uma esfinge, como se nos conhecêssemos há muito tempo e já não precisássemos de falar.

O meu cão é um lorde, um palhaço, uma besta, uma doçura. Acho que nunca conheci ninguém que me venerasse tanto, apesar de eu o ignorar a maior parte do tempo. Faz parte. Ele gosta tanto de mim que é capaz de ficar vários minutos muito parado e direitinho, peito aberto, patas esticadas, cabeçorra ligadíssima, enquanto passo rimmel nas pestanas, a observar atentamente uma coisa que não pode ter graça nenhuma, a não ser na cabeça de um cão de boa natureza e sem nada para fazer. Imagino que se pusesse rimmel pestana a pestana, e nisso levasse horas, ele ficaria ali na mesma, especado e sem pressa, até eu acabar, só para me seguir até ao passo seguinte, o quarto seguinte, a festa seguinte. (Também já me passou pela cabeça que lhe pode ter passado pela cabeça que a escova do rimmel é um snack pontiagudo e suculento com sabor a bacon e pedacinhos de maçã.)

Este cão é meio louco, às vezes estica-se e abusa. Salta para as nossas camas, embrulha-se nos edredons, rouba-nos troféus, escarafuncha a terra e suja-nos o estendal, tritura documentos com os seus caninos amorosos, mastiga molas, cospe cortiça. Entusiasma-se. É um verdadeiro excêntrico. Derruba damas indefesas. Chicoteia criancinhas com a sua cauda tresloucada, sem querer. Ladra como um louco para o gato empoleirado na árvore e cala-se como um rato quando um seu irmão estridente, que lhe caberia com facilidade debaixo da axila, se exprime com alarido. Nunca o vi arreganhar o dente. Rosnar, nem sequer nos sonhos.

E sonha, se sonha. Suspira e sonha.

Acontece pôr-me a pata em cima do ombro. Ainda não percebi se quando isso se dá, é ele, ou sou eu, quem está a precisar de atenção.

(Obrigada ao Jorge Margarido que me passou esta linda ilustração, contrastada em todos os aspectos, de um cão numa cadeira, e eu, que não tenho um cão com esta pose, lembrei-me logo do meu, rafeiro perdigueiro à procura de autor.)

2 responses to L

  1. Raffaella D'Intino

    Lindo Madalena ! Parece que estás a descrever o meu Jhonnie (só que eu não ponho rimmel mas imensos cremes depois do banho). Imaginar as coisas pela cabeça dum cão ajuda a relativizar e não perder o nosso sentido de humor ! É muito bom ter um cão ! Um beijo R.

  2. madmad – Autor

    Linda! Grazie! É verdade, houve mais pessoas a reconhecerem aqui os seus cães, o que significa, acho, que sendo todos únicos, aquilo que nos trazem e lhes damos é na essência igual. (Rimmel também já ponho pouco, acontece uma ou outra vez, são as liberdades da ficção) bjs!

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