D

(DOMÉSTICA)

Ela chega a casa e rega as plantas. Põe a água a correr para o banho, pica a cebola, recolhe os brinquedos esparsos, a panela ao lume, muita água pouca massa, descalça os sapatos, ajeita os jornais num montinho, dobra camisolas, abre gavetas, põe três lugares na mesa, três velas rasas no centro e uma flor. 

Está quente a água, sim, a ponta do cotovelo na superfície morna, mergulha, não sente, são 37º, mais coisa menos coisa, assim estará bom para o bebé, sim estará bom para o bebé. Mas isso era antes, não muito antes, mas antes. A cria crescera, ainda o enrola na toalha apertadinho naquela macieza toda, a toalha que ela abre para ele entrar, como se o guardasse ali para sempre, como se o pudesse guardar, crescem à mesma velocidade com que correm pelo corredor dobrando o riso, e ela atrás dele, anda cá vou-te apanhar e vou meter-te no forno, na água, na banheira quente que te espera cheia de barquinhos e patinhos e girafas elefantes crocodilos telefones e canetas para pintares os azulejos que depois vou apagar.

(a guardar ilustrações para os textos que se seguem, um belíssimo Joaquin Sorolla, depois do banho, pintado em 1915.)

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