Atrevimento

ATREVIMENTO

A grande vantagem de Eva é que invertida, ela se transforma numa Ave.
O que significa que basta querer, estalar os dedos, e pira-se. Bate as asas e põe-se a voar. Como uma fénix ardente, ou um daqueles pássaros míticos, penacho na cabeça, plumas de arco-íris, uma coisa grandiosa espampanante. Um fogo colorido rosa púrpura e amarelo atravessando as nuvens num voo sereno.
Lá de cima, no azul que nunca mais acaba, Ela vê o mundo de outra forma. O mundo sem tempo, para a frente e para trás. A eternidade.


Depois aterra e faz o pino entre as flores, caem-lhe as saias com a gravidade, tombam as parras e de novo se descobre. 

Isso foi depois. Depois de nascer.


A história é outra. A história é assim:
E Deus criou a mulher. 

Se Adão não dormisse recostado naquele tédio infinito. Se tivesse sonhado de olhos abertos. Se tivesse feito perguntas. Se quisesse saber. Se tivesse subido ao cimo da colina para ver a vista. Se tivesse olhado nos olhos de Eva. Os dedos de um procurariam os dedos do outro, e de mãos dadas, felizes andariam descobrindo o mundo.

Mas Adão deixou-se dormir. Ferrou o galho e sonhou com não se sabe bem o quê, pois havia pouco com que sonhar: tudo era lindo, perfeito, previsível, a relva era fresca, a sombra era farta e os rios todos corriam a rir. Adão não tinha culpa. Não podia ter, porque a culpa ainda não tinha sido inventada. 

Adão só não tinha imaginação.

Naquele tempo, o trabalho também ainda não tinha sido inventado. Sem nada que o cansasse, Adão caiu pesado de ennui.  E aí Deus abriu-lhe o peito e fez aquilo da costela. Pensando bem, não era grande novidade. Teria Adão inventado tudo? Não fora o outro que tirara Baco da coxa? Antes, depois, costela, coxa, tudo na mesma, as mulheres nascem dos homens, e deuses bacaníssimos resultam de divindades inchadas, egos olímpicos (ainda que generosos), disparando raios a torto e a direito, fugindo do rolo da mulher como o ciúme da cruz, caindo feitos chuva, em cima de uma beldade qualquer. 

Só que não.
Eva tinha a pestana aberta. Quem disse que foi na conversa da serpente? Mordeu o fruto porque quis. Porque lhe saiu dos ovários. Porque tinha fome ou estava de barriga cheia. 

Porque alguém tinha de fazer alguma coisa.


Adão ficou envergonhado, nunca se atreveria. Tapou o sol com a folha carnuda. Escondeu-se no meio dos arbustos para ver o criador passar. 


Depois Eva pariu, e doeu, se doeu. Mas Deus é grande e magnânimo, e também nesse instante lhe deu a viver o mais sublime e inexplicável dos momentos (embora isto seja pouco feminista): um clarão a rasgar o véu do mundo. 

Da costela de Adão, ou não, Deus criou a mulher. Não por acaso lhe chamamos Monstera Deliciosa. Génia. Gigante. Graciosa.

(Dom Galeano disse tudo, Eva teve má imprensa. Esta história inspira-se no micro-conto PONTOS DE VISTA 6, do grande Eduardo Galeano, de que me lembrei depois de receber esta belíssima costela e seu Adão espantado, criada pela talentosa @acristinafaz.)

One response to Atrevimento

  1. Catarina

    Maravilhosa história , tao curiosa e tao possivelmente real ! Adorei e adoro tudo l que escreves! Parabéns talentosa mulher mad mad

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