Despensa

Uma pessoa acorda com uma frase na cabeça e deita-se com outra, o que para alguns seria uma grandessíssima promiscuidade.

Uma pessoa pode até não acreditar no poliamor e abrir uma excepção para os livros, que devem ser muitos, múltiplos e variados.

Todos espalhados na mesinha de cabeceira inexistente, de pernas abertas, lombadas desfeitas, pelo chão espalhados e captados num único plano tatami.

Uma pessoa pode amar os livros, as capas, as páginas, os fiozinhos escondidos que as mantêm presas, os cheiros, os espaços entre as palavras, e as palavras, lógico, e ainda assim não gostar que se intrometam nos seus pensamentos, sem pedir licença, sem pontuação, sobretudo quando uma pessoa está à procura de qualquer coisa que ainda não encontrou.

Uma linha.

Uma pessoa pode passar os dias a arrumá-los direitinhos nas estantes, em colunas, a ajeitá-los como quem endireita uma gravata, ou as voltas de um colar, uma pessoa pode fazer montinhos, deixá-los espalhados por todas as salas da casa menos na casa de banho (para onde só irão, por ventura, se os esperar uma banheira), ou cobertos de migalhas, sacrílegas marcas de copos, mas o que nunca, mas nunca fará, será deixar um livro sozinho.

Isso seria uma desolação.

Existem pessoas que arrumam os livros como quem arruma uma despensa, ou como quem abre as portas de um roupeiro e descobre uma série de fatos todos iguais. Há quem os ordene por cores, mas até nessa beleza há um paradoxo, porque acaba por se instalar uma certa monotonia. A maior parte das pessoas arruma os livros numa ordem muito vaga, mas inteiramente funcional e sobretudo sua.

Uma pessoa deita-se com uma frase na cabeça – “he loved to feel the earth’s spine beneath him”, por exemplo – e acorda descansada, deslumbrada, a achar que pode escrever o mundo.

(a imagem é um pormenor de um quadro da escocesa Caroline Walker, que tem pintado a vida das mulheres, a quarentena e a intimidade como uma Hopper dos dias de hoje).

4 responses to Despensa

  1. Luis Afonso

    Os meus livros, como tudo nesta casa, são orfãos de pai. Acabam onde e como a Sunny os quer. Normalmente por cores.

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