Palpite

Senhor Jaime tem uma vida tranquila.

Ele acorda sempre à mesma hora, faz sempre o mesmo café. No seu passo indeciso, desajeitado, repete a promenade matinal nos 10 metros quadrados de cozinha: do armário onde guarda a lata, ao escorredor onde repousa, de boca para baixo, a desmembrada cafeteira italiana, como um tubarão de prata.

Daí para o fogão onde acende – com um fósforo que depois apaga e põe num pratinho cheio de irmãos fósforos – o bico mais pequeno. Aí Senhor Jaime coloca a cafeteira recomposta (água na barriga, filtro cheio até cima, nada de comprimir em excesso, parte superior acoplada em três voltas apenas e já está) em cima do bico, e fica a olhar, os olhos derretidos na coroa azul da chama, mãos nos bolsos, silvando sem se dar conta, primeiro ele, depois ela. 

Parece que chega primeiro o cheiro e só depois o som, mas também podia ser exactamente o contrário, e tudo estaria bem. Tranquilo.

A verdade é que Senhor Jaime não precisa de cronómetro e parece que pressente o temperamento da cafeteira: antes de ela começar a borbulhar, já ele se prepara, diligente, para girar o botão e sossegar a coisa. Palpita-lhe.

Senhor Jaime não é grande fã de relógios, o que não deixa de ser estranho numa pessoa com um aspecto tão regrado, que trabalha numa repartição pública, que nunca chega atrasado e que há muito tempo não precisa de despertador. Nem de cuidar de não fazer barulho de manhã, porque dorme sozinho, há muito tempo também. Senhor Jaime teve em tempos uma esposa, uma esposa que fugiu com um polícia. Mas isso foi no ano das peras, e ele não se chateou porque só se estragava uma família. E por isso Senhor Jaime, que sempre fora um bom marido, atencioso, silencioso, respeitoso e conciliador, teve de resignar-se a não deixar descendência. O que para ele estava OK, desde que pudesse continuar a mimar os sobrinhos, com chocolates na Páscoa e envelopes recheados no Natal, a ouvir os seus vinis, e a comer as suas sopas de cação.

(Pensei que o senhor Jaime, fino, gostaria muito deste Suplemento ao Dicionário Italiano, de Bruno Munari e por isso fui buscar uma imagem que, como todas as outras, fala por si)

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