Nina

Nina corta as ondas suave, numa solenidade estranha, feita de soltura e ritmo. Os dias no mar são longos e leves, longos e leves. O tempo tem mais tempo e não é preciso fazê-lo render, basta aprender a navegá-lo. Há seis dias que não vê terra, e poderia ter outros seis pela frente, e mais seis, e seis vezes seis trinta e seis, e Joan continuaria naquele sossego doce, a vida tranquila.

Turnos de quatro horas não são a coisa mais doce, sobretudo quando o mar está agitado como uma mulher caprichosa. Ou um homem impaciente. Ou uma mulher impaciente e um homem caprichoso. O mar é fluido, o mar agita-se e nele todas as coisas estão suspensas, avançando. O mar pode ser um homem, mas também uma mulher, como acontece em algumas línguas latinas. Em francês, por exemplo, é sempre uma fêmea. Em castelhano é um macho que nas mãos dos marinheiros e pescadores se transforma numa mulher: la mar. Em inglês os navios têm género, e são sempre femininos. Aquele veleiro era certamente uma mulher, Nina, Nin, tantos nomes e seria sempre uma menina.

Há seis dias que não avista terra, mas noutras travessias podiam passar semanas sem que visse sequer outros barcos. No mar, o isolamento é um estado natural. O confinamento tem horizontes mais vastos, é tudo. À volta azul, azul, azul. Do céu à superfície líquida que se agita, branco, cinzento azul. A abóbada celeste caindo-nos no colo, negro, prata, luz, cintila.

(este é um excerto de um conto de sete páginas, e não dez, que escrevi a propósito do confinamento, na primeira vaga. Pedi ao Júlio Dolbeth que o lesse, e ilustrasse se tivesse paciência, e como se vê ele não só teve paciência como toda a delicadeza e beleza e generosidade com que me tem presenteado sempre. Estou-lhe muito grata. Ao Júlio e a todos os que me acompanharam nesta travessia dos 21 dias. O resto do conto (que nem começa assim) vou partilhá-lo como se fazia antigamente, em fascículos. é uma coisa muito pausada, muito século XIX, para contrariar toda esta urgência do século XXI. É uma slow life antes do tempo, antes de ser commodity. Em breve vou estrear um formato que não é um blog, e também não é um post de eshtagrã, mas é uma coisa muito moderna e tecnológica e ao mesmo tempo de sempre. Espero que gostem, e que estejam aí. Estejam atentos para ler o resto deste conto e outras histórias.)

Respond to Nina

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s