Snack Reads

Ando a escrever várias coisas e há uns dias numa entrevista disseram-me: “O mais importante é aquilo que podemos não estar a ver”. A entrevista não tinha, em princípio, nada de filosófico, e talvez por isso mesmo aquilo bateu-me.

O que julgamos que sabemos. Aquilo que para nós é claro. Isso é fácil. O problema (e o mais importante, talvez) é aquilo que podemos não estar a ver. 

Hoje quando o algoritmo me presenteou com a notícia (!) sobre a aliança improvável entre a Fnac e o Uber Eats, só não esfreguei os olhos porque já sei que não se faz. Em algumas coisas fico calada e sou obediente.

Mas pisquei-os várias vezes, isso sim.

Primeira imagem (na minha cabeça): um livro cheio de espinhas.

Segunda imagem (real): uma caixa de hamburger com um livro aberto lá dentro.

Está tudo certo.

A Fnac alia-se ao Uber Eats e anuncia com excitação o lançamento de Fnac Reads, um serviço chepétacular que permite encomendar um livro na Fnac e recebê-lo, quentinho, nos 30 minutos seguintes, cortesia do Uber Eats. E sem taxa de entrega! 

Para promover esta ideia genial, a Fnac+Uber Eats socorrem-se da imagem mais que perfeita, idílica até: uma embalagem de hamburger apressado, vermelha e amarela como deve (de) ser, abrindo uma boca toda feita de folhinhas. E com o não menos genial copy: “Alimenta a Mente Com Livros” somos alegremente recebidos no universo dos McBooks (não confundir com os computadores do mestre Jobs).

Está tudo certo. 

Eu não aguento, eu estou a rebentar, e não queria mesmo entrar por aqui, mas digam lá, isto é capitalismo on steroids ou é só impressão minha?

É possível que eu não esteja a ver o filme todo (e é possível que isso que talvez não esteja a ver seja o mais importante), mas assim à primeira vista e sem esfregar os olhos isto parece-me um descaramento, uma tristeza e uma aberração.

Porque esta parceria, que vista de longe, muito longe, podia até parecer uma boa ideia, é, no fundo, uma perversãozinha daquelas. Muito bem envernizada, claro está. Empacotada. Com um ligeiro cheiro a fritos, mas enfim.

Porque as livrarias, daquelas que vendem livros, estão fechadas, mas as que vendem outras coisas podem abrir. Porque os livreiros independentes, impedidos de terem as portas abertas e até de venderem ao postigo (é gritante a ameaça à saúde pública que isso constituiria), sobrevivem a atender os seus fregueses, recomendando livros à medida e aceitando encomendas por e-mail e por telefone, que muitas vezes entregam ao domicílio no próprio dia. Mas as Fnacs desta vida, que têm musculadas plataformas digitais capazes de vender livros sozinhas, não suportam a ideia de comer  a parte do leão. Têm mesmo de comer o bolo todo. E então aliam-se a um serviço de food delivery para satisfazer mais um capricho do mundo em que vivemos – a aceleração constante, a estúpida e estupidificante impaciência- e com isso vender mais uns exemplares (previamente selecionados e colocados no menu mais-do-mesmo, à conveniente distância de um click, não penses muito não vás deixar o carrinho abandonado) dos livros da moda. E é isto: selling is caring.

Só que não. 

Eu amo os livros e sei que para mim são o mais perto que uma coisa que não seja ar e luz e comida e água pode estar de um “bem essencial”, mas admito que não seja assim para toda a gente.

Sobretudo num país em que 43% das pessoas passa facilmente seis meses sem pegar num livro

Mas não é esta a questão.

A questão é perceber porque é que em Portugal os supermercados vendem livros, mas as pequenas livrarias não podem fazer o seu trabalho em paz (e se fosse ao contrário?  Queria um Murakami e uma lata de salsichas Isidoro fáxavor). A questão é que uma pandemia incomoda muita gente, mas se não fores a Amazon incomoda muito mais. 

A questão é que por este andar qualquer dia não temos livrarias. Nem livros. Nem editoras ou livreiros ou autores independentes. 

Só snacks. Coisas fáceis de mastigar, de digestão rápida. De vida curta, substituíveis. Quanto mais perecíveis, descartáveis, levezinhas, melhor. Nada é feito para durar. Nem o pó dos livros.

É toda esta enorme porcaria (não o pó, evidente) que esta ideia representa. Não é preciso ser-se génia para perceber que a distribuição é rainha. Mas até agora tínhamos editoras a negociar espaço nas prateleiras das grandes livrarias, mas também livrarias resistentes que destacavam as “Mulheres fora da prateleira”. Ou seja, eram permitidas pequenas bolhinhas, balõezinhos de oxigénio para uns, alfinetes espetados no grande lombo do mainstream adormecido para outros. Agora as bolhinhas estão todas a rebentar. Se não abrimos a colectiva pestana, qualquer dia em vez de Fnac Reads, e ainda a liberdade de nos alimentarmos bem, querendo, já só temos Snack Reads, e a desgraça de comer sempre o mesmo.

(a propósito, enquanto não podemos regressar em liberdade às livrarias e alfarrabistas, continua a ser possível comprar livros a quem os compreende e defende. A sério, há pelo menos um plano B, e não passa necessariamente por pôr mais uma moedinha no porquinho da Amazon, que no último trimestre de 2020 teve 6,3 mil milhões de dólares de receita. Há vida para lá dos gigantes, espreitem na RELI e encomendem os vossos livros. Basta mandar um e-mail com o livro que procuram e rapidamente os livreiros em rede respondem e tratam da encomenda. Em harmonia. Com amor aos livros. Delícia.)

5 responses to Snack Reads

  1. Raffaella

    Adorei !

    Devias mandar publicar num jornal ou enviar em carta aberta ao Marcelo pois É urgente lembrar a importância dos Livreiros
    Um beijo
    Raffaella

  2. Raffaella

    Adorei !

    Devias mandar publicar num jornal ou enviar em carta aberta ao Marcelo pois É urgente lembrar a importância dos Livreiros

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