João Cutileiro

João tinha aquele brilhozinho nos olhos. Era permanente, como uma escultura. Tudo o resto nele se movia. Brilhava. Ele falou-me de Kabul e ensinou-me que não se dizia “tenho uma amiga minha” porque se temos uma amiga, ela já é nossa. Ou de quem a apanhar.

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Clarice

Comecei Clarice pelo fim. “A Hora da Estrela”, o último livro que Clarice escreveu, foi o primeiro que li. Também vi. Na adaptação para cinema de Suzana Amaral (1986) que ganhou o urso em Berlim e passou na aula de Film and Literature, módulo I, Professor Robert Stam.

Lembro-me do livro, que se perdeu numa viagem transatlântica. Era fininho, era azul, tinha uma ilustração Picassiana na capa, e dizia, claro, “The Hour of the Star” porque era uma edição americana. Fui ver: afinal é um desenho de Paul Klee.

O livro perdeu-se, metido num grande navio, enfiado, com outros irmãos livros, num velho saco de pano militar que era a maneira mais barata de transportar livros – ou qualquer coisa volumosa e sobretudo pesada – dos Estados Unidos para a Europa. Nunca chegou a minha casa (na altura, na parte mais meridional do reino de Al Andalus). Nunca mais o vi.

O livro perdeu-se, ficou Clarice.

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Pretziada: Histórias de Uma Ilha

Ivano quer saber porque é que há tantas moscas à minha volta.

Depois de enxotar o embaraço (desde quando se vêem moscas no Zoom?) respondo que as moscas fazem parte da vida campestre. Já nem reparo nelas. Ou reparo, mas aceito.

Agora, rodeada de moscas, sou eu a fly on the wall.

No dia da entrevista estamos no princípio do Outono, o Sol ainda bem alto e bem quente. O meu escritório abre para o pátio, e no pátio há uma videira que começa a desmaiar. Também há uma nespereira. Também há duas laranjeiras (uma decorativa, outra amarga, ambas intragáveis excepto em versão compota) e um limoeiro rachado que apesar de tudo insiste em dar limões. Há um quintal, o domínio do meu cão, e ervas loucas a despontar por todo o lado, entre as pedras, nas escadas, rompendo paredes. E musgo nas zonas mais sombrias do muro. 

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Escultura em movimento (pó de vir a ser)

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Primeiro, o nome. Pó de vir a ser. Pode. Podia. Podia lá haver nome mais bonito para uma associação que nasceu para “fazer da escultura uma coisa para todos”?

(Lembro-me de ouvir o nome, recém-chegada ao Alentejo, e dizer, bolas, que nome mais bem pensado, mais um bocadinho e contrato-os para copy.)

Demorei muito tempo a vir conhecer este lugar. Não tempo de mais, só muito. Bom, algum. Passaram dois anos e depois de passar várias vezes à porta do antigo Matadouro de Évora, finalmente entrei. Fica no número 58 da Rua de Machede. Vale a pena.

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Aspas

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Há pessoas que gostam muito de colocar as coisas entre aspas. Assim: “entre aspas”.

Que bonito.

A mim enervam-me. São uma suspensão escusada. Denotam uma falta de convicção, naquilo que se diz e se escreve, que faz dó.

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design x life

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Será que o design pode salvar o mundo? Provavelmente não, mas pode dar uma ajuda.

Foi a pensar naquilo que cada um pode dar a partir do seu bocadinho de mundo que Sam Baron, designer incroyable, e Karine Scherrer, fundadora da galeriaArt Design Lab lançaram a iniciativa solidária Design X Life.

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Abraço

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Na praia, não havia nada que gostasse mais de fazer do que procurar conchinhas. Primeiro conchinhas, depois pedras de vários feitios cores densidades porosidades. Era uma ocupação.

De mão dada, à beira-mar, o avô ordenava às ondas que deixassem de rugir e sossegassem. Elas obedeciam sempre, lindas meninas. Ela podia apanhar mais conchas à vontade.

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Frère Jacques

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Primeiro, foi Brel. Ne me quitte pas, disse-lhe, e ele continuou como um louco, doce, feio-bonito, a correr atrás das estrelas. Depois veio Prévert e uma história admirável sobre um dromedário, que lia sempre aos domingos de manhã, devidamente acompanhada de bolachas maria. E finalmente Tati, de todos o maior, alma gémea em décalage, encontro desencontrado, inexplicável adoração.

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Manifestação

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composition.jpgDizem-me que é preciso manifestar. Dizem-me que sou muito boa a manifestar casas. Quero dizer, visualizo-as e elas acontecem. Pode ser que seja verdade. Pode ser que tenha de apurar esse sentido, onde manifesto as manifestações.

(Será que está na altura de convocar uma mánif?)

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Arábias

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Revi um filme de Jean Rouch que mete girafas e carros, e voltei a Nova Iorque, para onde esta clausura me tem levado algumas vezes sem eu pedir. É espantosa a capacidade que temos de desaparecer, escorregando para outros lugares e outros tempos, de olhos bem abertos, sem sair do sofá. Noutra altura diria: quero viver aqui e agora. Acontece que o confinamento tem uma elasticidade surpreendente e neste aqui, agora mesmo, cabem uma data de coisas felizes memoráveis irrepetíveis esplendorosas e banalíssimas até.

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