Nina

Nina corta as ondas suave, numa solenidade estranha, feita de soltura e ritmo. Os dias no mar são longos e leves, longos e leves. O tempo tem mais tempo e não é preciso fazê-lo render, basta aprender a navegá-lo. Há seis dias que não vê terra, e poderia ter outros seis pela frente, e mais seis, e seis vezes seis trinta e seis, e Joan continuaria naquele sossego doce, a vida tranquila.

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ABRAÇA A TUA MENINA, VAI

Vem daí vamos dançar. Assume o teu olhar desafiante, descabelado, inventa tudo o que possa ser inventado. Cagando para as os pratos empilhados, a loiça suja, limpa, suja outra vez. Esqueci o pó dos móveis e sacudi tudo, parti a loiça toda sim, reinventei-me.

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Chá das Cinco (Cerimónia)

Vestido preto, pele branca. Alto e pára o baile e todo o salão emudece preso naquela saia rodada, rodada, rodopiando como um pião metálico enrolado numa faixa de cetim.

O chão brilha, o tecto rompe fácil o firmamento, o lustre cambaleia como se estivesse pendurado num navio apanhado numa súbita tempestade.

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D

(DOMÉSTICA)

Ela chega a casa e rega as plantas. Põe a água a correr para o banho, pica a cebola, recolhe os brinquedos esparsos, a panela ao lume, muita água pouca massa, descalça os sapatos, ajeita os jornais num montinho, dobra camisolas, abre gavetas, põe três lugares na mesa, três velas rasas no centro e uma flor. 

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G

(GALOCHAS)

Naquela escola havia uma praia compartimentada. O recreio não tinha cimento, não tinha gravilha, não tinha borracha no chão. Tinha areia. A areia era mais cinzenta que outra coisa, e estava contida em pequenos planaltos, protegidos por muretes baixinhos. Não era um areal a perder de vista, brilhando infinito debaixo do sol. Mas era bom. 

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L

LISTA DE COMPRAS 

Fralda de pano, alfinete de dama, ama, lápis de cera, rádio cassete, boneca, roupa de boneca, pente de boneca, livro riscado, panelinhas, gira-discos, rede brasileira, bombocas, kalkitos, digitinta, portas de espelhinhos,

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P

(Pirilampo)

Li que no Japão há uma festa inteira em honra dos pirilampos. Chama-se hotaru-matsuri e acontece no Verão, em vários pontos do país, em ilhas onde nunca fui e onde provavelmente nunca irei. Incrível como uma imagem tão distante, que nunca vi ao vivo, a não ser uma vez num filme belíssimo chamado Ama San – e isso, contando muito, não conta – pode exercer tamanha força. 

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Escultura em movimento (pó de vir a ser)

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Primeiro, o nome. Pó de vir a ser. Pode. Podia. Podia lá haver nome mais bonito para uma associação que nasceu para “fazer da escultura uma coisa para todos”?

(Lembro-me de ouvir o nome, recém-chegada ao Alentejo, e dizer, bolas, que nome mais bem pensado, mais um bocadinho e contrato-os para copy.)

Demorei muito tempo a vir conhecer este lugar. Não tempo de mais, só muito. Bom, algum. Passaram dois anos e depois de passar várias vezes à porta do antigo Matadouro de Évora, finalmente entrei. Fica no número 58 da Rua de Machede. Vale a pena.

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