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Quando achava que na minha vida só havia espaço para uma Ella – a Fitzgerald, e mais nenhuma – a minha amiga G., sempre muito moderna, antecipa-se ao Natal oferecendo-me um livro de receitas saudáveis para não fundamentalistas.
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Quando achava que na minha vida só havia espaço para uma Ella – a Fitzgerald, e mais nenhuma – a minha amiga G., sempre muito moderna, antecipa-se ao Natal oferecendo-me um livro de receitas saudáveis para não fundamentalistas.
Portugal, sem cheta, não vai à Expo de Milão. Tudo bem. Não vejo em que é que isso contribuiria grandemente para a felicidade pátria. Já uma ida a Milão, por estes dias e sempre, parece-me que poderia contribuir em alguma coisa para a nossa felicidade individual.
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Slavoj Zizek chama MacGuffins aqueles objectos que atravessam os filmes de Hitchcock, e nos intrigam imenso, porque não fazemos a mais remota ideia para que servem ou o que estão lá a fazer. Reparem: só nós (e talvez Hitchcock, esse grande gozão manipulador) é que não sabemos o que é que os MacGuffins estão lá a fazer. As personagens sabem, só que não nos dizem. Assim, enfeitiçados pelos MacGuffins, ficamos completamente de fora, e no entanto, por isso mesmo, totalmente dentro do filme.
Agora que comemos sementes como pássaros
Podemos finalmente libertar as andorinhas que há em nós
A minha queridíssima amiga B. desafiou-me para um almoço repentino. Fui finalmente conhecer o xu-xu da Time Out, a.k.a Mercado da Ribeira revamped. Devo dizer que fiquei impressionada. Positivamente. O aspecto de cantina modernaça, mesas corridas estilo nórdico, começou por me perturbar, por impessoal. Pouco a pouco, fui percebendo que era difícil pôr as coisas de outra maneira.
O design não é a cereja no topo do bolo, dizem-nos os benfeitores do Fabrico Próprio. Não é, de facto. É o bolo inteiro. A cereja toda. Caroço, polpa, pele. De dentro para fora. De fora para dentro. Vulcão e crosta. Erupção. Projecto e processo. E pensamento. E o traço, e o traço.
Às vezes, trinca-se. Timidamente. Às vezes come-se e somos vorazes. Às vezes enjoa tanto que nem vê-lo.
Considero-me um “garfo” em progresso ( em breve irão ter notícias disso mesmo aqui no playtime), que para mim é quase o mesmo que dizer que sou um garfo progressista. Gosto de comer, e de beber, coisas novas, e cada vez mais retiro mais prazer daquilo que como e bebo, e da circunstância e companhia em que o faço. Deve ser da idade. Veja-se o MEC: começou a escrever sobre música quando ainda vivia em Inglaterra, e agora, na calmaria de Colares, para além de perfeitas declarações de amor à sua querida Maria João (que é querida de todos nós), escreve, essencialmente, sobre comidinha. Livros e comidinha.
S. portou-se mal uma destas manhãs. Pieguices por aí, a mãe chateada e S., 5 anos, geniozinho à flor da pele, a bater sonoramente com a porta do quarto. Ai, ai, ai, ai. A cria ficou de castigo, onde mais lhe dói: na barriguinha. “Estás a fazer fitas, a ser malcriado, agora estás de castigo e não comes sobremesa”.
(Na véspera, tínhamos feito, en famille, um cheesecake, que na receita dizia “light” mas, devidamente quitado por nós, guardara pouco da sua leveza. As crias lambuzaram-se.)