Promenade

Parece que algumas aves migram na Primavera, e eu também não sou de ficar muito tempo parada. A menos que que me dê para alentejar (e dá-me cada vez mais), debaixo de um chaparro, ou de uma tília, daquela tília, se tiver acordado chique.

Daí esta estranheza toda de ter começado este blogue há 12 anos (!), na mesma altura em que comecei a meditar, e alguns meses depois do meu querido S. nascer, e ainda aqui andar.

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ABRAÇA A TUA MENINA, VAI

Vem daí vamos dançar. Assume o teu olhar desafiante, descabelado, inventa tudo o que possa ser inventado. Cagando para as os pratos empilhados, a loiça suja, limpa, suja outra vez. Esqueci o pó dos móveis e sacudi tudo, parti a loiça toda sim, reinventei-me.

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Chá das Cinco (Cerimónia)

Vestido preto, pele branca. Alto e pára o baile e todo o salão emudece preso naquela saia rodada, rodada, rodopiando como um pião metálico enrolado numa faixa de cetim.

O chão brilha, o tecto rompe fácil o firmamento, o lustre cambaleia como se estivesse pendurado num navio apanhado numa súbita tempestade.

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Memórias de África

(eu não tenho)

Em África, os dias começam mais cedo e assim muitas vezes às dez da manhã aquela miúda já tinha papado três pequenos-almoços completos, insulares e à inglesa, um em sua casa, outro em casa da avó, outro em casa dos tios, e assim, contente e de barriga cheia se encaminhava para casa dos padrinhos, umas ruas mais acima, onde a família em questão estava reunida à mesa ricamente disposta,

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D

(DOMÉSTICA)

Ela chega a casa e rega as plantas. Põe a água a correr para o banho, pica a cebola, recolhe os brinquedos esparsos, a panela ao lume, muita água pouca massa, descalça os sapatos, ajeita os jornais num montinho, dobra camisolas, abre gavetas, põe três lugares na mesa, três velas rasas no centro e uma flor. 

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G

(GALOCHAS)

Naquela escola havia uma praia compartimentada. O recreio não tinha cimento, não tinha gravilha, não tinha borracha no chão. Tinha areia. A areia era mais cinzenta que outra coisa, e estava contida em pequenos planaltos, protegidos por muretes baixinhos. Não era um areal a perder de vista, brilhando infinito debaixo do sol. Mas era bom. 

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Desassossego (le paradis c’est les autres)

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Há quase dois verões mudei-me para o campo. Teoricamente vivo numa cidade, mas na prática isto é a pasmaceira absoluta. O mais luminoso sossego.

Ainda bem.

Foi para isso que vim.

Lembro-me de como me incomodava o silêncio nesse meu primeiro Verão alentejano. O silêncio era uma coisa louca, de perfurar os tímpanos, e fazer tremer os alicerces desta construção em construção que sou eu. O silêncio que não me deixava dormir. O silêncio que tomava conta de tudo, do espaço e tudo o que contém, interior, exterior, por dentro e do avesso.

Hoje já não o ouço.

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Página 99

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Entramos na gruta de Ali Babá e S. hesita uns segundos antes de descobrir o caminho que leva ao espaço das crianças. É um ninho dentro de um ninho.

Estamos na livraria Fonte de Letras, em Évora, e não sei como é que o meu filho me deixou entrar. Se calhar foi porque não parecia bem uma livraria, ou só uma livraria. Se calhar cheirou-lhe a bolinhos.

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Sólidos Fofinhos

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Landscapes 18_IORParece que está cientificamente provado que a arte liberta serotonina e ia jurar que o design também. Olhando para alguns objectos que nos causam espanto, um espanto bom, percebe-se imediatamente o efeito que têm em nós, tão suave, luminoso e necessário como um banho de Sol de Inverno.

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