ABRAÇA A TUA MENINA, VAI

Vem daí vamos dançar. Assume o teu olhar desafiante, descabelado, inventa tudo o que possa ser inventado. Cagando para as os pratos empilhados, a loiça suja, limpa, suja outra vez. Esqueci o pó dos móveis e sacudi tudo, parti a loiça toda sim, reinventei-me.

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Chá das Cinco (Cerimónia)

Vestido preto, pele branca. Alto e pára o baile e todo o salão emudece preso naquela saia rodada, rodada, rodopiando como um pião metálico enrolado numa faixa de cetim.

O chão brilha, o tecto rompe fácil o firmamento, o lustre cambaleia como se estivesse pendurado num navio apanhado numa súbita tempestade.

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Memórias de África

(eu não tenho)

Em África, os dias começam mais cedo e assim muitas vezes às dez da manhã aquela miúda já tinha papado três pequenos-almoços completos, insulares e à inglesa, um em sua casa, outro em casa da avó, outro em casa dos tios, e assim, contente e de barriga cheia se encaminhava para casa dos padrinhos, umas ruas mais acima, onde a família em questão estava reunida à mesa ricamente disposta,

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D

(DOMÉSTICA)

Ela chega a casa e rega as plantas. Põe a água a correr para o banho, pica a cebola, recolhe os brinquedos esparsos, a panela ao lume, muita água pouca massa, descalça os sapatos, ajeita os jornais num montinho, dobra camisolas, abre gavetas, põe três lugares na mesa, três velas rasas no centro e uma flor. 

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G

(GALOCHAS)

Naquela escola havia uma praia compartimentada. O recreio não tinha cimento, não tinha gravilha, não tinha borracha no chão. Tinha areia. A areia era mais cinzenta que outra coisa, e estava contida em pequenos planaltos, protegidos por muretes baixinhos. Não era um areal a perder de vista, brilhando infinito debaixo do sol. Mas era bom. 

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Desassossego (le paradis c’est les autres)

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Há quase dois verões mudei-me para o campo. Teoricamente vivo numa cidade, mas na prática isto é a pasmaceira absoluta. O mais luminoso sossego.

Ainda bem.

Foi para isso que vim.

Lembro-me de como me incomodava o silêncio nesse meu primeiro Verão alentejano. O silêncio era uma coisa louca, de perfurar os tímpanos, e fazer tremer os alicerces desta construção em construção que sou eu. O silêncio que não me deixava dormir. O silêncio que tomava conta de tudo, do espaço e tudo o que contém, interior, exterior, por dentro e do avesso.

Hoje já não o ouço.

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Página 99

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Entramos na gruta de Ali Babá e S. hesita uns segundos antes de descobrir o caminho que leva ao espaço das crianças. É um ninho dentro de um ninho.

Estamos na livraria Fonte de Letras, em Évora, e não sei como é que o meu filho me deixou entrar. Se calhar foi porque não parecia bem uma livraria, ou só uma livraria. Se calhar cheirou-lhe a bolinhos.

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Sólidos Fofinhos

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Landscapes 18_IORParece que está cientificamente provado que a arte liberta serotonina e ia jurar que o design também. Olhando para alguns objectos que nos causam espanto, um espanto bom, percebe-se imediatamente o efeito que têm em nós, tão suave, luminoso e necessário como um banho de Sol de Inverno.

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Postal de Verão #3

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Agora que passou a bafa e sobrevivemos podemos respirar fundo – inhale, exhale – e retomar a vidinha. Cada um faz o que pode e eu regresso ao blogue abandonado, para afirmar que #printsnotdead e o blogging também não.

Só tem dias.

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