Palpite

Senhor Jaime tem uma vida tranquila.

Ele acorda sempre à mesma hora, faz sempre o mesmo café. No seu passo indeciso, desajeitado, repete a promenade matinal nos 10 metros quadrados de cozinha: do armário onde guarda a lata, ao escorredor onde repousa, de boca para baixo, a desmembrada cafeteira italiana, como um tubarão de prata.

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Pretziada: Histórias de Uma Ilha

Ivano quer saber porque é que há tantas moscas à minha volta.

Depois de enxotar o embaraço (desde quando se vêem moscas no Zoom?) respondo que as moscas fazem parte da vida campestre. Já nem reparo nelas. Ou reparo, mas aceito.

Agora, rodeada de moscas, sou eu a fly on the wall.

No dia da entrevista estamos no princípio do Outono, o Sol ainda bem alto e bem quente. O meu escritório abre para o pátio, e no pátio há uma videira que começa a desmaiar. Também há uma nespereira. Também há duas laranjeiras (uma decorativa, outra amarga, ambas intragáveis excepto em versão compota) e um limoeiro rachado que apesar de tudo insiste em dar limões. Há um quintal, o domínio do meu cão, e ervas loucas a despontar por todo o lado, entre as pedras, nas escadas, rompendo paredes. E musgo nas zonas mais sombrias do muro. 

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design x life

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Será que o design pode salvar o mundo? Provavelmente não, mas pode dar uma ajuda.

Foi a pensar naquilo que cada um pode dar a partir do seu bocadinho de mundo que Sam Baron, designer incroyable, e Karine Scherrer, fundadora da galeriaArt Design Lab lançaram a iniciativa solidária Design X Life.

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breathless, branded and bewildered

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Um dia conheci um digital manager que mandava tanto que lhe chamávamos digital master, e ele percebia mesmo daquilo, posts, e influéncers e #hashtags, e melhores horas para postar, e microblogging e cross posting, e colabs, e todos os meandros da #vidavirtual.

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Noctambule

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Nunca soube bem como se pronuncia “Grcic”, na minha boca cada dia é uma pronúncia diferente, mesmo depois de ter entrevistado o grande Konstantin, há vários anos, há várias vidas, fiquei na mesma. Em vez de lhe perguntar o que achava sobre o excesso de objectos desenhados num mundo cheio de mais (e ainda não se falava de crise climática) devia ter-lhe disparado, “Konstantin, como se pronuncia o teu nome?”.

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A Rolha da Garrafa do Rei da Rússia

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Uma Madalena foi à ópera e um casal muito simpático perguntou: “Então já não escreve sobre design?”.

“Tem dias”, respondeu.

Hoje é um desses dias. Porque antes que o ano acabe é importante lembrar as coisas boas que o marcaram, e o trabalho do colectivo de designers francês Collections Typologie é um óptimo exemplo.

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Tati na Taschen

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Ontem teria feito 112 anos, querido Tatischeff. Tinha o Sol em Libra tout comme moi, e é possível que isso explique alguma coisa.

Este blogue chama-se Playtime for a reason. Ver Tati num cinema ao ar livre, debaixo do quarto crescente numa praça Alentejana, rodeada de velhinhos à risota e de crianças indisciplinadas foi um dos meus Jour de Fête do ano.

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Nature Vive

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Olhei para estas peças de cerâmica da italiana Paola Paronetto e pensei nos quadros do Giorgio Morandi, que descobri em Paris,  não sei bem quando mas antes dos 20 certamente, pela mão do meu padrasto seguramente, quando a vida me parecia vibrante e tremenda e de uma beleza incerta e doce, exactamente como os quadros de Morandi.

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Activismo (Bela Moka)

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Não sei se continua acesa a discussão (?) à volta da cannabis, passa-me ao lado muita coisa – mesmo coisas por ventura bastante interessantes e importantes – e este blogue em princípio trata de temas levezinhos, nada de drogas, nem pesadas nem leves, nada de eleições, nem de cartazes obscenos a falar de “dinheiro” e “contas certas”.

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vende que te quiero verde

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O verde vende, é óbvio. Vende que se farta – verde que te quiero verde, vende que te quiero verde, vende que te quiero vende – e basta olhar à nossa volta para perceber de que maneira o faz e como somos todos alegremente levados nessa ilusão cheia de folhinhas e rebentos e cenas renováveis.

Consumimos, consumimos, consumimos, mas porque é verde, redimimo-nos, redimimo-nos, redimimo-nos.

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